Emoções? Coisas legais? Ás da Ironia dot Blogspot dot Com.
Eis então que sou uma pessoa sociável. Eis então que a vida está fácil para mim e que por alguns dias, eu estive vivendo momentos de ouro. Eis então que estou num poço tão fundo, que não posso arriscar sequer olhar para cima. Nunca pensei, planejei ou quis que a vida fosse fácil e, agora que ela o é, eu piro. Completamente maluco. Legal, não é? Muito legal e sequer estou bêbado.
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Ele olhava com o olhar vago de um viajante para a lua que acabara de se mostrar por entre as nuvens. Em seus lábios, um cigarro amassado crepitava silenciosamente entre breves tragadas com um leve aroma de menta. Ou seria cravo? Sua mente estava longe demais para decidir.
Estava sentado na janela, com uma perna esticada e a outra caída pelo que seriam dois andares de excruciante dor e que provavelmente não renderiam nada além de algumas escoriações. Em uma mão, ele tinha seus sonhos, seus planos... E na outra, ele carregava uma caixa de fósforos e, naquele momento, ele não fazia idéia de qual das mãos carregava seu bem mais precioso.
A vida o deixava da mesma forma com que o cigarro virava cinzas ao vento. Com o abrir lento da mão esquerda, ele deixou que seus sonhos fugissem. Com o abrir da mão direita, ele abraçou o seu destino de ter uma vida curta.
Ele jamais pedira uma vida simples. Nunca esteve acostumado com as coisas fáceis da vida e jamais sequer planejara passar dos 16 ou 18 anos. Seus sonhos acabou há muito tempo, quando ele entrou na universidade. Seus planos iam até o próximo cigarro ou até a lua sumir de vista novamente: O que viesse primeiro estava bom.
E como os outros o viam. Olhavam para ele como se ele não tivesse problemas, como se a vida lhe fosse fácil e, desta forma, fosse exatamente o que ele queria. Mentira. A vida fácil era sua maior punição. Graças a isso, ele sempre sentiu conforto nas teorias apocalípticas envolvendo 2012: Se o mundo acabasse, ele não precisaria viver e ainda assim ainda teria uma chance...
Chance do que? Ingressar no paraíso como se fosse tão simples quanto um vestibular? Ele sequer via um paraíso em algum lugar. Perdera esse direito logo no meio de sua vida, da mesma forma com que perdera nas outras vidas, apenas não fora longe demais desta vez. Seria esse o seu erro?
Gostava de se sentir único e de se dizer um conhecedor da ritualística do universo, mas, mesmo sabendo de tantas coisas, poucos fios o seguravam àquela vida. Ele viera de tão longe, de tão profundo, após anos de exílio, apenas para viver uma vida fácil?
Seus problemas eram exatamente a solução para os problemas de todos os outros. Sempre fora bom em concertar os outros, mas jamais se abrira com ninguém, exceto para papéis e pessoas que não davam a mínima para o que sentia. Aliás, ele era uma pessoa feita por momentos. Lembrava de todos que um dia conhecera, mesmo que fossem rostos sem nomes. Mais ainda: Ele guardara até as mais ínfimas ações como quem protege um tesouro.
Ele via seu túmulo. As pessoas, em volta, perguntam por que ele fizera tal crueldade "com um corpo e uma mente tão sãos"... O quão distantes dele ele mantinha as pessoas? O qual distante. Por uma última vez, ele olha para a lua. Pela última vez, ele acende outro cigarro e, pela última vez, ele voa para a escuridão.