terça-feira, 29 de abril de 2008

Hermetismo

Caro leitor, o material abaixo é ligeiramente pesado e complicado. Se não entender nada, é porque ele não foi direcionado à você. Essa realmente é uma coisa que eu não ousaria discutir com qualquer um, já que são idéias particulares, de experiências particulares e de conceitos particulares.

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Há anos não penso no Hermetismo. Não sei se era o fato de eu estar mentalmente acomodado às minhas crenças ou se foi o fato dos eventos recentes terem fechado minha mente. Ao leitor, já aviso que esse texto se mostrará inútil àqueles que não conhecem a palavra ou nunca ouviram falar das fantásticas teorias herméticas.
Imaginar o tudo como ele realmente é exige tanto de nossa mente, que demorei alguns dias para me reposicionar quanto às "leis" herméticas. fiquei perdido por um tempo até me lembrar que o que eu vinha lendo em outros lugares tratavam exatamente sobre isso e que finalmente tenho maturidade para dizer que consigo ver de relance os fundamentos do hermetismo em nosso universo.
Foi na frase apresentada por um bom amigo de taverna que este bardo voltou às origens, já que foi o hermetismo que de fato abriu minha mente a idéias novas, absurdas e tremendamente enlouquecedoras. Uma explicação bem básica e interessante do hermetismo, olhando pelo lado prático, sem se prender à todos os fundamentos que o precedem provavelmente já é de domínio do leitor. Se não o é, permitam-me os iniciados que eu use termos grosseiros para explicar algo tão complexo e maravilhoso:
A maneira mais simples de se explicar o conceito é dizer que tudo é mental. Tudo é feito de pensamentos e idéias. Nossas idéias podem ganhar vida de acordo com nossa vontade e por tanto, nós homens criamos dos Deuses até nossos próprios destinos, tudo traçado no fluxo de pensamentos do Todo. Em resumo, isso nos daria o poder de usar nossas mentes para alterar a realidade indiretamente ou modificar partes do plano mental de forma a nos favorecer.

Desse conceito egoísta, nos fica claro que trata-se da visão mais grotesca o possível de algo que consumiu séculos para ser trazido à vida. Mas usando esse conceito, é interessante trabalhar com a idéia de que por mais que criemos nossos Deuses, todos eles existem ao mesmo tempo, sem que nenhuma crença se choque. Da mesma forma vale pensar que quando solidificamos parte desses efeitos mentais através de nossa vontade, temos efeitos reais, materiais e tangíveis.
Se a mente humana sozinha é muito limitada para criar uma sala com o pensamento que flui o universo, milhares de mentes são poderosas o bastante para criarem seus deuses, seus santos e todos os tipos de efeito.
A complexidade do hermetismo sempre pede mais estudos, mas seus efeitos são tão fáceis de se mostrar na prática, que qualquer pessoa curiosa conseguiria ter seu efeito material (os céticos provavelmente não têm força de vontade o bastante para ter esses efeitos, claro).

Falando em céticos, o ceticismo é além do que muitos pensam. Não é a arte de duvidar, mas sim a arte de ter a curiosidade de correr para descobrir e aceitar resultados. É se empolgar ao encontrar uma trilha para o desconhecido, e não recusá-la por está já ter sido usada antes. Do cético devem partir teorias que tentam provar algo que ele não acredita e não dúvidas que nem mesmo ele nem os deuses podem responder. Sei que todos os meus leitores são sumariamente céticos sem saber o ser. Eu já fui cético, sou cético, mas de tanto quebrar a cara, tenho tudo que me é necessário para crer nos materiais que apresento aqui.

O pensamento é forte, apenas deve ser trabalhado. Mas não seja levado pela teoria hermetista! Não deixe que ela atrapalhe seu julgamento como uma vez fez comigo há vários anos. Seu julgamento é tão poderoso quanto qualquer pensamento.

Darvius Alexandros III
O Bardo das trevas.

domingo, 27 de abril de 2008

Um pouco de meta-pensamento.

Um dia, meus caros leitores, eu fui completamente cego. Cego por minha razão orgulhosa de achar que sabia. Foi muito doloroso e me custou muito perder esse orgulho e para, aos poucos, abrir os olhos para a realidade à minha volta. Muitos trabalharam para que eu retomasse minha capacidade de filosofar, no sentido da palavra. A minha curiosidade voltou aos poucos até que pude me devotar aos estudos para saciar meu desejo extremo pelo saber. Eu queria saber o porque de tudo e ainda o quero. A grande vantagem de descobrir o porquê das coisas é que sempre podemos argumentar contra o as respostas dos próximos porquês. O grande problema é justamente o fato de que uma avalanche impiedosa de porquês te assombram impiedosamente a cada resposta que você obtem. O leitor que está me lendo agora sabe o que é isso, porque apenas os conhecedores da arte do pensar lêem essas cartas. São os únicos que não me dizem louco. Essa avalanche impiedosa nos leva a desistir de todos os conhecimentos que obtemos para voltarmos à cegueira original. É isso que eu invejo: A cegueira. Os que não querem saber se há a verdade, se há deuses em uma cidade de prata ou se há realmente a morada única para os mortais. Esses são os sábios: Aqueles que preferiram a sanidade ao precioso bem que é o saber.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Foram-se quatro dias.

Caro leitor, já lhe aviso que esta postagem será mais uma da śerie "Eu não postaria aqui". Estou sem o lugar onde guardo meus escritos, e acho que não há mal colocá-los aqui. São pensamentos em tempo real de minha mente insana, não há sentido lê-los.

Foram-se quatro dias desde minha última carta. Nesses quatro lentos dias, nada mudou para o mundo, as pessoas sãos as mesmas, as coisas continuam em seu frenesi de sempre, e a vida ainda passa diante dos olhos de quem a quer enxergar. Todos continuaram os mesmos, exceto uma pessoa e eu. Esa pessoa não é a mesma por experiências que ela teve, não me convém contar até porque ao ler, ela saberá quem é. E eu. Por que mudei? Por que raios o que antes eu era hoje não sou? É neste ponto que quero chegar. Preciso explorar cada vazio de minha mente para encontrar a peça que preenche esse pequeno vazio que tenho.
Onde está esse vazio. Em meu ego? Não, estou com meu ego intocado desde aqueles tempos imemoriaveis. Meu orgulho se foi, espero eu, há tempos. Não há como feri-lo. Acho que acabo de me proximar do problema.
A perfeição em meus atos não existe, lógico, mas cada erro me provoca uma nauseante quantidade de dor. As espectativas que quebro a cada erro meu.Mas quais erros? Quais?! Sim. ninguém o sabe, mas não temo por erros meus, cometidos contra minha pessoa ou que possam me prejudicar de qualquer forma. Me preocupo, mas do que isso, me puno pelos erros que cometo e que afetam aos outros. Minha auto-imagem? Seria isso? Não. Esta por mais que se altere, nunca chegará a limites tão baixo quanto já chegou. Acho que é o fato de não conseguir ser o que os outros esperam. Talvez apenas nisso eu queira ser perfeito. Talvez eu queira viver com todos satisfeitos comigo à minha volta, mas sei que isso não só não é possível como também me seria muito prejudicial. Mas tratava-se de um vazio em meu sub-conciente, que nada disso podia ver além de meus erros com os outros. E finalmente, posso dizer que o vazio se foi. E dizem que o papel não é um bom amigo.

Se leste até aqui, meu caro leitor, é sinal de que a tua insanidade cresce. De que a tua vontade em penetrar nos pensamentos de alguém mais louco do que você toma-te as forças e o leva para lugares horriveis. Sorte que é apenas a borda da minha mente, uma pequena fronteira que me faz humano.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

domingo, 20 de abril de 2008

Cai o Bardo de Alaberta

Os tambores rufaram naquela tarde no distante reino de Alaberta. Do horizonte, a poeira subia, tampando o sol. De dentro da paliçada, quatrocentos homens aguardavam com suas lanças à pique enquanto outros duzentos e cinqüenta montavam explendorosos cavalos brancos, os mais belos de todo o Sudeste. Os estandartes dourados da cidade gaulesa brilhavam ao sol, que aos poucos foi tampado pela poeira de mil cavaleiros. Os portões se abriram, e os lanceiros se colocaram em formação fechada, apenas esperando por seu destino. Entre eles, o Bardo líder desfilou por um momento e falou a todos que o olhavam preocupados com o tremer da terra:


"Hoje os Deuses não estão do nosso lado. Perdemos centenas de homens na nossa cidade de Lacarta e eu, ferido como estou, sinto somente o que posso sentir: É aqui que encontraremos nossos destinos, aqui pereceremos em história e aqui nos guardará o tempo, nesta batalha que lutaremos. Mas nosso oponente é um fraco de espirito. Os feitos dele serão esquecidos com o tempo, mas os nossos, serão marcados nos grandes monumentos dessa terra, e sobreviverão à ira dos Deuses, e viverão para todo o sempre como em nossas almas! Vamos homens! Nosso clã de sangue espera noticias nossas!"


Os guerreiros urraram. Todos sabiam que aquele exercito havia sido marcado pela morte e que em seu fim, encontrariam inimigos sedentos por vingança. Alaberta teria que resistir novamente às areias do tempo sem seu herói, que já tombara em muitas outras ocasiões.

Quando a poeira tampou o sol, quando toda a areia do deserto subiu para dar espaço aos cavaleiros que corriam desvairadamente, o estandarte vermelho sangue do clã inimigo se revelou: Os Vírus queriam Alabertta.

Os estandartes dourados dos Senhores da Gloria, com o simbolo do clã Gloria Dominus, pararam de brilhar, e com um grande clarão de fúria, a grande batalha começou. O sangue dos Alabertanos jorrou ao solo sagrado, enquanto esses derrubavam em fúria os cavaleiros do inimigo oculto. Os cavaleiros escondidos em suas muralhas, partiram para o flanco inimigo, lançando suas mais poderosas magias, mas o número é um fator cruel. Nem mesmo flaqueados os cavaleiros de Serket pereciam em números enormes. Antes que o Bardo se desse conta, já estavam em Alaberta os seus terriveis inimigos. A cidade fora saqueada rápidamente, algumas partes foram queimadas, mas aos olhos do Heroi Bardo, tudo isso era o fim. Com uma lágrima escorrendo por seu rosto, o Bardo atacou ferozmente as centenas de cavaleiros que recuavam com seus trofeus, e sua profecia de antes se consolidou. Com igual ferocidade, uma lança cortou o peito do Bardo, que caido de joelhos, olhou para os céus, em busca de seus deuses, e de lá, viu apenas o faiscar da Lua, que ja mostrava seus dominios.

Assim caiu o Bardo Líder de Alaberta. Assim o Império de Alaberta entrou nas trevas de sua existência.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

sábado, 19 de abril de 2008

Do Pó ao Pó

Há tempos não olho para o céu e vejo a Lua. Há tempos parei de fazer essas coisas simples, que nos levam cada vez mas longe em nossas vidas. Acho que acabei mudando, virando alguma coisa que me tentava há tempos também. Os tempos realmente são outros, mas eu não esperava mudanças maiores para mim. Nunca achei que deixaria de ver a Lua e as estrelas durante minhas viajens, nunca imaginei que deixaria em paz tantas pessoas importantes para mim, nunca sequer sonhei em criar um local público para escrever sobre minhas idéias... Como pude mudar tanto.
Não mais penso em uma série de coisas que não tenho liberdade de discutir aqui, não mais cumpro as coisas que mais me agradaram no passado e mesmo assim, me sinto leve e feliz. Não sinto mais um vazio em minha alma, como se eu tivesse esquecendo de minhas verdadeiras intenções e de meus ideais. Talvez isso seja bom... Talvez eu tenha me conformado com as coisas que vejo e preferido novamente me fechar em meu mundo de loucura para que ninguém jamais me encontre. Eu sei onde isso me leva. Sei da armadilha que estou entrando e sei como sair dela. Parece que me acomodei a todos os meus problemas sozinho, para variar. Parece que conciliei meus dois mundos, e agora, tudo que faço aqui não mais reflete minha pessoa trancada.
Alguns chamam isso de liberdade total. Eu chamo isso de farça. Vejo que Nimb zomba-me com seus melhores dados, e que cedo ou tarde minha sorte acaba, e eu cairei novamente no clássico buraco vazio de onde vim.
Ao leitor, peço desculpas, já que este é um texto que não deveria ser publicado aqui. Se não ficou claro o que estou dizendo, é porque talvez você não me conheça tão bem quanto pensa conhecer. Se ficou confuso, peço que leia novamente o título deste local onde você se encontra. Lembro-te de que aqui escreve um bardo que há eras tombou para o lado da loucura e que em sua lápide apenas deseja ter escrito "Do pó ao pó" em letras frias e sem cor. Esse é o meu mundo, bem vindo a ele.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A Cidade de Magnólia - Parte 3

Parte três do conto. Estamos quase avistando os limites da cidade, mas ainda não sabemos. Divirtam-se e boa sorte para o nosso calmo herói.

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Seis dias. Uma noite gélida me congelava os ossos. Meus mantos eram grossos, mas ali, lidávamos com os dedos de Tenebra, a deusa da noite, que sempre penetrava fundo na carne, deixando os homens com medo e frio.

A fogueira teimava em permanecer acesa, enquanto a lua seguia o seu caminho pelo seu mais estrelado que alguém poderia ver. Ah, se Tenebra fosse menos cruel com as criaturas desse deserto, talvez eu lhe desse uma chance e passaria a olhar mais para a lua. Essa seria a noite em que eu devia dormir. Como ventava um pouco, eu sabia que seria acordado diversas vezes.

Meus olhos abriram a tempo de ver o último faiscar da fogueira. Mas não fora isso que me acordara. Mais à frente, próximo dos meus suprimentos, havia dois vultos baixos, com pele macilenta e cinza. Eram orcs. Ratos sorrateiros que nunca andam em menos de cinco. Nunca tive problemas em negociar com eles. Eu disse lentamente, enquanto levantava com minha espada em mãos:

“Vocês estão de saída?”

Eles viraram rapidamente, enquanto de trás dos suprimentos, mais duas cabeças disformes e acinzentadas se mostraram. O mais alto, com pouco mais de 1.5 metro de altura disse com uma voz esganiçada:

“Cuide de sua boca, humano, enquanto ainda pode.”

Retirei o manto de minha face e meus cabelos esvoaçaram com o vento. A lua me dava uma visão perfeita dos quatro. Eram magros, aparentemente famintos. Seria fácil pegar eles. Apanhei minha adaga em minhas botas, e o líder avançou um pouco, dizendo confiante:

“Não faça isso, humano, não seja idiota!”

Olhei-o enquanto me erguia com a adaga pronta para o arremesso e disse:

“Você não era um bom líder.”

A adaga cortou o ar. Por um instante, a lua foi carregada pelo reflexo em sua lâmina e aquele objeto brilhante acertou em cheio a garganta do orc que liderava. Esse apenas balbuciou alguma coisa antes de cair inerte ao solo:

“Pronto, seu líder está morto. Agora saiam daqui. Agora.”

Os três me olharam, pegaram alguns objetos e começaram a andar:

“Sem levar nada!”

Isso me irrita. Você dá a chance a criaturas que mal merecem a vida de poder continuar no mundo e elas retribuem com um gesto dos mais baixos. Isso realmente me irrita e quando isso acontece, tenho problemas em saber quando parar. Alias, geralmente, só percebo que deveria parar quando tudo acabou.

Por um momento, meus olhos se fecharam. Havia um peso morto na ponta de minha espada e eu sentia minhas mãos molhadas por algo viscoso. Acontecera novamente. Os três góblins estavam mortos. Cruelmente rechaçados pelo meu acesso de fúria. A areia estava revirada e coberta de sangue. Era hora de seguir em frente. O sangue atrai coisas muito perigosas no deserto de Lamnor.

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Continua na Parte 4.

Mudanças...

Oh Bardo quisestes o triste narrar?
Perdestes a deixa de quando parar.
Já não se pede a luz da manhã
Pois o véu transparente do falso lhes basta.

Oh Bardo quisestes sua história contar?
Perdestes a deixa, não vá começar.
O Mundo é outro, não pede canções
nem chora os mortos e suas razões.

Oh Bardo quisestes seu mundo mudar?
Perdestes a deixa, ele vai acabar.
Não pedem heróis a quem confiar
só pedem o sexo e o que lhe bastar.

Oh Bardo quisestes o céu olhar?
Perdestes a deixa, pois não o verá.
Se foram os dias de pura ilusão
e as almas daquela época perderam a razão.

Oh Bardo quisestes por isso chorar?
Perdestes a deixa, pára de sonhar.
Hoje os dias voam e as almas também
E o seu lugar vagou para o além.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

domingo, 13 de abril de 2008

A Cidade de Magnólia Parte 2

Para os que não lembram, apenas procurem a parte 1.

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Pois recebi o primeiro pagamento. Na verdade, o ouro que posso gastar antes da viajem e que me fará lembrar o quanto fui feliz antes de morrer no deserto. Naquela tarde escaldante, doei metade dos meus mil e seiscentos tibares para a construção e manutenção de um novo posso para a cidade. O restante eu usei para reparar minha armadura. Caro? Nem ou pouco. Levando em conta que um tibar paga a minha estadia em uma taverna realmente luxuosa, oitocentos tibares seriam muito bem gastos na manutenção de minha armadura. Ela é feita de mithril, um raro metal por esses lados. Leve como uma pluma, mas com uma resistência ainda maior do que o aço, minha armadura de placas sofreu muito com minhas últimas missões. Armadura reparada, poços financiados, grupo reestruturado, eu resolvi partir para uma das missões mais longas de minha vida.

Montar um camelo é desagradável, mas me acostumei. À minha frente, vejo dunas, uma árvore seca bem no horizonte e um céu azul. Em pleno meio-dia, é insanidade sair para o deserto. Não questione minha sanidade. Levantei o turbante que por um momento passou a cobrir meu rosto e dei uma última olhada ao infinito que me separava de Magnólia. O suor já caía por minhas faces cobertas por uma manta de algodão grosso. Na sela do camelo, eu sentia próximas à minha perna esquerda, duas lanças de madeira, que já me salvaram algumas vezes. Em minha bota, tenho minha pequena adaga. Minha bainha com a espada está logo acima de onde coloquei as lanças e por precaução, um arco cruza minhas costas à frente de uma aljava com vinte e cinco flechas. Estava vestindo minha armadura e esta estava coberta por uma capa. Não é seguro ser um ponto brilhante naquele deserto.

Assim, eu e meus dois camelos nos distanciamos dos muros da cidade, rumando ao horizonte, minha cabeça já pesada pela intensidade do sol. Mas eu agüentaria. Os Deuses não deixariam o único herói de Lamnor morrer.

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Continua na parte 3. Não é grande. Prometo que acaba logo.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

A Amiga Parte 2

As almas foram coletadas enquanto a forte chuva acabava com o fogo bravio. Da fumaça e dos corpos carbonizados, o vento fazia a limpeza, deixando apenas pó entre alguns poucos moribundos. A dama, com aparência cansada sentou-se em uma cadeira poupada, como se sua imortalidade estivesse cansada de mais uma noite de trabalho e pouco tempo depois, o velho Keen, senhor da guerra, se aproximou para tomar fôlego:

"Lamnor já foi uma terra mais pacífica..."

E a dama olhou para o céu sujo de fumaça, como que procurando a Lua:

"Lamnor já teve dias melhores. Os humanos são tolos e ofuscados por Azgher agora se acham senhores de seus destinos. Estão tomando seus rumos agora, os rumos da guerra..."

E o velhos Keen se agachou, começando um desenho nas cinzas que pousaram ao chão:

"Nunca meu nome foi tão chamado. Tanna-toh, em todo o seu conhecimento, previu o fim da vida em Lamnor. Só me resta velar a justiça nas lutas, a vitória e a seleção dos mais fortes. Acho que os elfos..."

Tenebra se ergueu e com um movimento brusco, limpou a parte do céu que ocultava a lua e então começou a falar encarando sua própria forma no céu:

"Os elfos são sábios... Há muito se escondem sobre suas indestrutiveis muralhas de madeira. Há eras eles previram que isso ia acontecer."

E Kenn olhou para a Deusa:

"Os elfos não me darão uma guerra por enquanto. Nessa guerra, apoio o mais forte. Mas temo pela sua traição..."

E Tenebra riu:

"Sempre escolhendo lados... Agora vai influenciar uma guerra também?"

Kenn levantou-se e de seu desenho, uma longa lança adornada em pedras foi saindo do chão para a sua mão direita:

"Os elfos tem belas armas. Os humanos perderam a mão em suas armas e hoje apenas lutam com lixo. Você sabe que a arma não faz o homem, mas é ela que ceifa as esperanças de vitória do seu oponente."

O rosto da Deusa mostrou certo espanto:

"Keen, o Deus da Guerra, está dando território a Khalmir, tirando a justiça das batalhas?!

E Keen respondeu frio:

"Keen, o Deus da Guerra, está apenas dando ajudando o tempo a mostrar quem é o mais forte."

E Keen mudou seus pensamentos para sempre, na guerra mais sanguinolenta que o mundo de Arton já vira.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Uma Amiga

A chuva forte fustigava a existência da cidadela: Há muito que as noites naquela pequena cidade fortificada não eram a mesma. Dos muros altos de pedra branca, soldados em cansadas armaduras sustentavam em seus peitos um arranhado brasão de uma fera há muito extinta. Eles cantarolavam durante sua patrulha:
"Nightfall!
Quietly crept in and change us all...
Nightfall!
Quietly crept in and change us all...
Nightfall!
Immortal land lies down in agony..."

A chuva já não incomodava por causa do hidromel, e a cantoria continuava cada vez mais alta, quando da escada mais próxima, um homem envolto em um manto grosso se aproximou assobiando uma velha canção de outras terras. A medida que ele passava, deixava pegadas negras e uma estranha sensação de vazio e esquecimento. Ele se sentou em uma cadeira próxima e passou a fitar a cada um dos que ali estavam presentes. Sua voz era rouca e gasta e todos lhe deram suprema atenção:

"Não se incomodem, não parem. Estou aqui apenas aguardando uma amiga. Mas ela vêm logo, vem sim."

Todos voltaram imediatamente aos seus afazeres, como se o homem não estivesse lá. Talvez de fato não estivesse. Passado um breve instante, um suspiro ou uma piscadela, um elfo, já sobre a muralha gritou exaltado:

"A floresta está queimando! Está queimando! O Mago vermelho está aqui!"

E nessa hora uma enorme bola de fogo subiu pela muralha, banhando em chamas cada canto da pequena vila, devorando à todos e deixando vivo apenas o homem sentado. De repente, das chamas, uma mulher de pele prateada como a lua e com os olhos mais negros do que o próprio vazio se aproximou, com seus cabelos púrpura esvoaçando com as chamas. Ao chegar próximo ao homem, lhe disse em voz calma e melodiosa:

"Keen, o Deus da Guerra."

E o homem, se levantando todo sorridente, lhe disse em retribuição:

"Tenebra, a Deusa dos Mortos."

Ambos sorriram e começaram a coletar almas.


Darvius Alexandros III
O Bardo Louco
Mais um dia na roda do mundo. A mortalidade me parece um negócio justo. Talvez, toda a magia do viver se resume de que uma hora morremos. Alias, somos invejados por isso. Os Deuses nos invejam por mudarmos nossos caminhos, bem, mal, justo, leal... Somos mutáveis sim e pagamos isso com nossas vidas. Os imortais, ah, esses invejam sim. Invejam pois nós não temos que ver tudo a nossa volta ficar velho e morrer, a madeira apodrecer e o conhecimento se esvair com nossa senilidade eterna. Sim, a morte é um bom negócio. Assinamos ao nascer com nosso sangue e um pequeno pedaço de nossas almas... O pedaço que representa tudo que aprendemos, ganhamos e vivemos nesse mundo. Um preço justo para ser efêmero. Talvez ainda esperemos para nos reerguermos em um futuro distante ao som do fim do mundo, ou então nos foi reservado um novo corpo, ou ainda, viveremos para sempre vagando na mente do grande pensador ou até mesmo seremos guiados ao vazio total. Mas não temos que nos preocupar com isso. Estava no contrato que assinamos ao nascer. Nós lemos. Nós sabemos. Pensamos por tanto tempo pra descobrir, adquirimos tanta certeza no resultado ao qual chegamos que hoje ele é verdade. Não me conformo com os que aceitaram uma resposta pronta ao seu destino. Ninguém foi traçado partindo de um molde. Por que seu final seria tão simples?
Invejo a todos os que aceitaram sem pensar uma convicção. O começo da vida e a morte são tão simples para eles, jamais pensam em outra coisa. Seguem sua curta vida pensando no hoje, no amanhã... Mas jamais se incomodaram em pensar no final. Alias, é tolice pensar em algo que representa fim da nossa existência. Mas sou tolo. Sou um bardo louco e desde muitas eras eu penso nisso. E desde muitas eras encontro o mesmo fim, com a mesma resposta: Não valeu a pena.
Nessa vida, o que já vivi me deixou cortes por toda a eternidade. Mas sei que na morte, esses cortes serão cauterizados para que as cicatrizes se mostrem em minha próxima existência e novamente eu pense em como fui parar lá. A mortalidade realmente é um bom negócio.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

domingo, 6 de abril de 2008

O Sonho das Águas Turbulentas

O amor é o lema do homem
tanto a vida quanto a morte visou
tantas guerras e fases criou
é perfeito como lhe convém.

É um sonho de águas turbulentas
revirando no fundo d'alma
dos sofridos amantes mortais
que o levam para longe, longe,
e por ele fazem tanto, tanto,
que de sonho este vem a existir.

E se existe, acaba.
Volta ao sonho que já foi.
Arranca lágrimas, desconsolo
e mata a alguns e a outros reza o fim.

E se acaba, oh, pobres de nós!
Bendito os que tem dores para chorar
pois dores se curam com a vida
mas um amor, nem a morte hei de lavar.

Mas somos ricos por causa do amor.
Os que o tem, tem sorte.
Os que não o conhecem
são felizes também.

E se um dia erramos com o amor,
nos culpamos, morremos de angustia
apenas para levantar no outro dia
e dizer que tivemos sorte de amar.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

Àqueles que puderam amar e continuaram vivos.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Far, Far Beyond My Mind

Somente na insanidade eu faria algo como o que estou fazendo. Revelando um texto há muito escrito e lido somente nos meus mais profundos sonhos. Quantos dias contei até poder mostrá-lo a todos? Para a minha sorte, todos não passam de alguns grandes amigos. Sou tolo? Não. Sou um bardo. É minha sina propagar a história, propagar a verdade e como farei isso se não sou verdadeiro comigo? Estou aqui sozinho. No túnel à minha frente, apenas uma luz fraca, uma lâmpada velha e esverdeada. A medida que caminho, o que posso dizer? Apenas digo o que vejo. Andei e vi um pequeno grupos de pessoas. Bons amigos, sim, mas nunca tiveram o aval para entrar em minha mente. Ora, você leitor sabe que é verdade. Quem sou? Sei tanto sobre os outros e me revelo mais uma face escura na multidão. Sou especial? Claro que não. Louco sim. Especial não.
Não escrevo pela beleza das palavras pois é por isso que leio. Apenas escrevo porque é a última forma que conheço de escoar meus sentimentos. A tinta negra que escreve minha vida faz e fará parte de meu começo, meio e fim. Meus textos são desvirtuados, sem sentido. Afinal, o que esperava? Minha mente flui tão rápido por meus dedos, que mal posso acompanhar. Repare a pressa em não reparar em meus erros. Daí esses textos confusos. Me esforcei, mas digo. Foram poucos os que penetraram minha mente e se ajustáram à meus pensamentos, desenvolvendo um laço tão forte quanto o da loucura.
Por fim, sei que não estou sozinho, mas me sinto culpado em não retribuir o que penso. A todos meus amigos, minhas sinceras desculpas. Prezo demais a vocês para jogá-los na rede insana de meus sonhos. Vivi por tantos séculos que hoje o tempo me mata. Me leva o que h´ade precioso, mas continua trazendo à minha praia, pessoas como você, leitor, que um dia poderá ler todos os meus textos.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas