segunda-feira, 21 de julho de 2008

Nada Mais.

Aos poucos, tudo que mais prezo se evapora nessa existência. Minha mente, cada vez mais, se vê incapaz de fazer qualquer coisa do que antes fizera com tanto êxito. Não mais me sinto apegado aos meus objetivos e a cada segundo, a cada respirar, eu tenho mais certeza de que já está tudo perdido, como sempre. E como sempre, a culpa é irremediavelmente minha.
Basta notar os vários textos egoístas que tenho publicado que não têm a menor consideração pela racionalidade do leitor, muito menos pelo tempo que, caso algum gaste, ele gasta lendo minhas linhas infrutíferas. Não mais posso dizer que estou feliz com o que faço hoje, além de não ter o mínimo de capacidade que é necessária à execução da mais simples equação.
Penso onde que perdi tudo o que eu tinha conquistado graças ao meu mais árduo esforço. Penso onde errei e se perdi no meu caminho minha vontade de existir. Alias, sinto-me cada vez menos apegado a esta existência.
Todo dia para mim, é apenas outro e não há nada que me faça olhar diferente. Sempre que o pensar me atinge com sua bestial força, me sinto tentado a me levar além de minha maldição. A tentação é tão grande, que às vezes, eu mesmo penso ela ser real.
Não há mais em mim o prazer da descoberta, o prazer do poder tentar, o interesse e o aprofundamento que antes eu tinha pelas coisas. Estou cada dia mais perdido, sem guia em um lugar que definitivamente poderia ser ocupado por um ser mais capaz.
Uma grande pena eu não ligar para o que anda acontecendo. Uma pena que minha consciência se limite a assistir e a lamentar sutilmente de cada ocorrido. Agora, a existência não passa de um filme mal feito, que me leva às ruas fétidas do mundo e a cada rua, encontro mais um cadáver de outra grande oportunidade que eu poderia agarrar.
Foram tantas oportunidades que levei para o meu túmulo, tantas idéias que eu um dia considerei levar adiante em minha vida, que hoje sinto como se eu tivesse passado meus últimos anos como uma criatura vil, um parasita de toda a sociedade, sem produzir nada de útil que fosse e sem adicionar nada à vida de quem quer que eu tenha conhecido.
São tão poucas chances que uma pessoa normal tem de fazer tudo certo, e elas continuam aparecendo para mim abundantemente, e assim, me acomodo. Espero pelo dia em que o desejo da necessidade me leve a agarrar cada oportunidade que deixei passar.
Arrependimento é uma palavra tão vazia para mim que, por mais estranha que a vida que levo comece a parecer, não esboço qualquer sinal de mudança. Talvez faça parte da minha maldição, talvez seja apenas uma de minhas penas: Almejar a condição de mudar que cada ser humano possui.
Quem dera eu, louco e cego como ando, poder olhar para minha vida e dizer: Está tudo errado, ainda tenho tempo de mudar. Por algum motivo, sei que por mais que eu mude, esta será apenas mais uma vida que eu levo. Apenas mais um breve passar sobre a superfície iluminada pela minha Deusa, que hoje mostra o seu prateado para todos que, como eu, voam pelo mundo.
Estou ferido bem profundamente, no mais íntimo do meu ser e sangram-me idéias. Não mais entendo o porquê, mas sei que não conseguirei atingir minha meta. Estou fadado ao fracasso por motivos estranhamente óbvios, escritos na pedra, ou no muro, se preferir. Até que este muro caia, não mais poderei fazer o que mais amo neste mundo, que é tentar consertar algo que jaz, há muito, roto em meu ser.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

terça-feira, 15 de julho de 2008

VITALINO POST MORTEM



Caro leitor,


Se vos escrevo nesta noite fria e de insuportável silêncio, é porque trago minhas mãos sujas de sangue, pelo ato mais vil que um dia cometi. O peso que carrego em minha mente não é o de um assassino, mas o de um suicida em seu post mortem, já que lamento com minha vida à todos os meus atos.
À quem matei, me perguntas, mas não percebes o quão cruel é seu perguntar. Lembrar-me da vítima me trás mais perto dos tempos antigos, onde se tocava alaúde e dançava-se em roda. Não mais sei quem sou, dirá saber minha vítima.
De qualquer forma, esta seria apenas mais uma em um mundo onde a vida humana vale tanto quanto sua miséria. Alias, minha vida mesmo já teve maior valor. Agora, com o peso em sangue com que me sujei, aguardo o julgamento da noite.
Por todas as ruas já caminhei, olhei nas faces de cada pedinte, de cada prostituta que navegam pelo mar nanquin da noite escura. Neles, vi vários suicidas. Muitos perdidos, mas todos, todos eram assassinos como eu.
Todos nós um dia seremos julgados por nosso mal. Não pelo deus à quem clama o louco em vermelho. Não pelo deus que carrega mais sangue pela cruz do que a humanidade toda. Nunca pelo deus, que de tão amoroso, cegou à todos os seus fiéis, que caíram no abismo do mundo plano. E sim por todos os Deuses que nós criarmos. Os Deuses que vêem no passado sua criação pela união da mente humana e que se conservaram vivos durante toda a existência do Todo Universal.
Esses Deuses, eu não temo. Sempre amei à noite. Cada lágrima que um dia o solo reclamou, foram dadas à beleza de Arianhod, que pela primeira vez nomeio nestas cartas. Sua beleza sempre me inspirou a paz e sempre me deu o brilho nos olhos além de me fortalecer ante meus inimigos e os conspiradores de minhas diferenças.
Porém temo pelo mal que fiz. Temo pela vida que tirei. Minha própria vida. O meu próprio assassinato em tal noite escura na qual interveio a Deusa das Sombras. Se matei minha própria existência, se acabei com minhas chances de redenção, então sou um assassino do pior dos tipos.
Sou pior do que os suicidas pois estes sei que já morreram e já foram punidos por sua ação. Sou pior do que o assassino que matou outra vida e que ainda tem a sua para se agarrar. Sou um soldado morto perdido em um exército de vivos, lutando para parecer quem fui. Sou aquele que tirou o próprio direito à viver e que como punição, ganhou a eternidade de uma existência, para olhar para todos à sua volta e dizer "Oh, belos são e tão vivos... Maldito hei de ser aquele que se matou, mas nunca deixou seu corpo para os corvos comerem".
Como todo assassino, esperei pela punição, e somente agora percebi que tudo que tentei entender até agora nunca passou de uma punição. Mas se é a vontade da Deusa de Prata, não faço nada além de aceitar.
Talvez eu ainda possa mudar meu destino. Alterar este plano, moldá-lo nas formas da aceitação de meus defeitos. Moldá-lo de acordo com o que quero e não com o que a sociedade espera de mim. Talvez eu ainda possa voar livre de minhas amarras, ser levado pelos meus sonhos novamente para as ruas e juntar-me aos meus irmãos e irmãs que foram renegados pela vida e pela existência e que apenas conservam parte de sua humanidade.
Ah, caro leitor, não mais lerá uma tão profunda reflexão sobre a minha existência. Não mais verá o bardo tão exposto em suas crenças, já que o desespero desta noite vazia me corroeu e, ao procurar por minha Deusa, encontrei o dia. Agora que sabes o que eu fiz, agora que conhece minhas crenças, agora que entende o eterno peso que carrego, peço que julgue-me no tribunal de sua mente e que me condene à ser amarrado sob o sol, privado de minha Deusa, para que os corvos comam minhas entranhas.


Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas