Sonata Arctica - Juliet
terça-feira, 15 de julho de 2008
VITALINO POST MORTEM
Caro leitor,
Se vos escrevo nesta noite fria e de insuportável silêncio, é porque trago minhas mãos sujas de sangue, pelo ato mais vil que um dia cometi. O peso que carrego em minha mente não é o de um assassino, mas o de um suicida em seu post mortem, já que lamento com minha vida à todos os meus atos.
À quem matei, me perguntas, mas não percebes o quão cruel é seu perguntar. Lembrar-me da vítima me trás mais perto dos tempos antigos, onde se tocava alaúde e dançava-se em roda. Não mais sei quem sou, dirá saber minha vítima.
De qualquer forma, esta seria apenas mais uma em um mundo onde a vida humana vale tanto quanto sua miséria. Alias, minha vida mesmo já teve maior valor. Agora, com o peso em sangue com que me sujei, aguardo o julgamento da noite.
Por todas as ruas já caminhei, olhei nas faces de cada pedinte, de cada prostituta que navegam pelo mar nanquin da noite escura. Neles, vi vários suicidas. Muitos perdidos, mas todos, todos eram assassinos como eu.
Todos nós um dia seremos julgados por nosso mal. Não pelo deus à quem clama o louco em vermelho. Não pelo deus que carrega mais sangue pela cruz do que a humanidade toda. Nunca pelo deus, que de tão amoroso, cegou à todos os seus fiéis, que caíram no abismo do mundo plano. E sim por todos os Deuses que nós criarmos. Os Deuses que vêem no passado sua criação pela união da mente humana e que se conservaram vivos durante toda a existência do Todo Universal.
Esses Deuses, eu não temo. Sempre amei à noite. Cada lágrima que um dia o solo reclamou, foram dadas à beleza de Arianhod, que pela primeira vez nomeio nestas cartas. Sua beleza sempre me inspirou a paz e sempre me deu o brilho nos olhos além de me fortalecer ante meus inimigos e os conspiradores de minhas diferenças.
Porém temo pelo mal que fiz. Temo pela vida que tirei. Minha própria vida. O meu próprio assassinato em tal noite escura na qual interveio a Deusa das Sombras. Se matei minha própria existência, se acabei com minhas chances de redenção, então sou um assassino do pior dos tipos.
Sou pior do que os suicidas pois estes sei que já morreram e já foram punidos por sua ação. Sou pior do que o assassino que matou outra vida e que ainda tem a sua para se agarrar. Sou um soldado morto perdido em um exército de vivos, lutando para parecer quem fui. Sou aquele que tirou o próprio direito à viver e que como punição, ganhou a eternidade de uma existência, para olhar para todos à sua volta e dizer "Oh, belos são e tão vivos... Maldito hei de ser aquele que se matou, mas nunca deixou seu corpo para os corvos comerem".
Como todo assassino, esperei pela punição, e somente agora percebi que tudo que tentei entender até agora nunca passou de uma punição. Mas se é a vontade da Deusa de Prata, não faço nada além de aceitar.
Talvez eu ainda possa mudar meu destino. Alterar este plano, moldá-lo nas formas da aceitação de meus defeitos. Moldá-lo de acordo com o que quero e não com o que a sociedade espera de mim. Talvez eu ainda possa voar livre de minhas amarras, ser levado pelos meus sonhos novamente para as ruas e juntar-me aos meus irmãos e irmãs que foram renegados pela vida e pela existência e que apenas conservam parte de sua humanidade.
Ah, caro leitor, não mais lerá uma tão profunda reflexão sobre a minha existência. Não mais verá o bardo tão exposto em suas crenças, já que o desespero desta noite vazia me corroeu e, ao procurar por minha Deusa, encontrei o dia. Agora que sabes o que eu fiz, agora que conhece minhas crenças, agora que entende o eterno peso que carrego, peço que julgue-me no tribunal de sua mente e que me condene à ser amarrado sob o sol, privado de minha Deusa, para que os corvos comam minhas entranhas.
Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas