sábado, 11 de outubro de 2008

O Viajante.

Manhãs como aquela foram feitas para os viajantes, aqueles cujas almas jamais encontravam a paz onde quer que estejam, exceto sob o brilho do sol rumo, rumando para um próximo lugar.

 O vento carregava as folhas em uma dança eterna e, justo delas, ia uma pessoa em sua viajem. O jovem não podia passar dos vinte anos, trajando uma pesada capa de viajem acinzentada por cima de suas roupas de algodão sem cor. Em seus pés, uma bota que há muito já fazia parte dele. Em sua cintura, uma gasta bainha denunciava uma espada detentora de muitas batalhas. O fardo em suas costas era leve para um viajante, ele possivelmente caçava muito bem.

Seu rosto era antigo, cansado para um rapaz daquela idade. Seus cabelos mostravam algum cuidado e esvoaçavam com os picos de vento. Seu caminhar um tanto lento denunciava sua exaustão e sua expressão mostrava que o sol começava a cegar-lhe.

 Há muito que fugira de seu mundo. Deixara para trás sua casa, seus pais, parentes e os que um dia ele chamara de amigos. Olhava sempre para frente, deixando para trás tudo em que começava a dar valor. Seus amigos vinham e iam, a morte jamais fora de poupar esforços em lhe manter sozinho.

Seu único sonho era o rumo que suas botas há muito indicavam. Jamais pegava estradas, jamais tivera um mapa, jamais carregara a ambição de ser famoso, um caçador de aventuras. Juntava-se com algumas pessoas por vez ou outra, porém, era sempre a mesma coisa. Por algum motivo, tudo à volta dele era marcado para a morte.

Alguns vilarejos prometiam a cura para maldições, porém, todos estes curandeiros haviam falhado miseravelmente. Essa falha trazia a morte e, claro, os que o conheciam sabiam manter distância.

Para o viajante só restava a sua jornada. Ele andava porque esperar a morte é algo complicado. Na verdade, ele apenas sabia que a sua vida era preciosa demais para a morte e, de tudo que ele já havia cedido, ele não cederia mais este prazer.

Darvius Alexandros III

O Bardo das Trevas

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Freedom Has a Meaning For Me.

A palavra liberdade é tão bela, carrega tantos valores, tantas batalhas, enfim, tanta história, que adoro pensar nela. A liberdade é livre pensar, é o ir e vir, e o escolher de todos, viver sem limites... Tudo isso em uma simples palavra.

Quem me dera ser livre. Alguns arriscariam dizer: "Ora, mas você estuda fora na melhor universidade do país, com certeza nada te impede de fazer o que você quer". Ledo engano de quem não me conhece.

Liberdade para pensar? Olhe o que escrevo e olhe o repúdio que sentes sempre que abre esta página! Isso é liberdade? Liberdade de expressão? Tanto trabalho para me encaixar na frívola etiqueta humana certamente não classificam a liberdade. Liberdade de ir e vir? De tempo? Sou um estudante, eu não deveria sequer estar aqui escrevendo tudo isso.

A única liberdade que possuo e que mais me agrada é em meus sonhos. Geralmente estou sozinho, num ambiente onde o horizonte não trás traços de humanidade (pelo menos, não de humanidade recente). Ando sozinho, ou com um cachorro ou amigo de muito tempo, e sempre (SEMPRE) estou armado. Seja com a Black Margot, criada para esses fins, seja com um velho fuzil ou rifle. As vezes, meu sonho ocorre comigo apenas vagando, as vezes visito cenários que já vi na ficção, e algumas vezes morro.

Para mim, há apenas duas coisas que posso chamar de liberdade: A morte e o contato extremo com o desolado da natureza. Meu sonhos sempre traçam uma linha muito fina entre ambas as formas de liberdade e de uma cosia tenho ceteza: Poucos dividem essa vontade comigo.

Um mundo sem relógios, onde o sobreviver já é mais do que o bastante. Onde o contato com a natureza é tão grande que, independente da fé, a natureza é uma força divina e deve ser respeitada.

Penso atualmente na Zone, uma porção próxima à uma antiga usina nuclear cujo reator se fundiu há vários anos. Aquele lugar desolado, misterioso, cheio de lembranças, porém, na auzência total da humanidade.

Não penses que quero o fim da humanidade. Apenas gosto da solidão ou de estar na presença de pessoas para quem não preciso atuar. Atuar é difícil e tem um custo enorme para o meu corpo e minha alma. Não consigo fazê-lo mais como eu gostaria.

Estou bem próximo do fundo do poço, ando controlando meu corpo como se minha alma não mais quisesse se mostrar ao mundo. Vou explodir, eu sei. Sei que não conseguirei repreender meu vício na forma mais extrema de sua existência e sei o tanto que isso é perigoso para os outros.

Por mais que eu esconda minha natureza real, no fundo, eu sei que não vou conseguir. Vamos rezar para que seja apenas mais um teatro, onde o público nem sonha que a peça tocada é a mais crua realidade. Preciso selecionar os atores com cuidado, muito cuidado, já que não tenho contato com os antigos atores.

Tudo muda exceto o bardo, já diziam as canções... Tudo muda exceto o bardo.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Fim.

Tenho pensado muito no fim de tudo, no dia em que olharemos para o céu e veremos fogo. Essa suposição, por algum motivo me fascina muito, ver a chuva caindo sobre o chão vermelho, sem nenhuma certeza do que virá amanhã.

Pode ser este o sonho mais profundo de todo homem. Tudo que criamos, cientificamente, tenta justificar o começo de tudo, a origem da vida, da existência, como começamos a pensar... Não queremos saber o porquê de tudo e sim o final.

O final de toda a criação fascina o homem desde novo. Prédios caindo, desgraças maiores, desastres aéreos, naufrágios trágicos e tudo que nos deixa com sentimento de ausência de esperança nos chama muita atenção. É só pensarmos em quantos bilhões de pessoas se fascinaram com um par de prédios que caiu há alguns anos.

A morte fascina o homem não pelas suas conseqüências e sim pelo seu momento, o deixar da vida. Por algum motivo, amamos ver a última faisca da esperança, torcer para um final diferente do óbvio, rezar para que os manetes de potência sejam corrigidos, ou que o único F-16 da USAF consiga abater o 767 indefeso antes que este se transforme na predição das sibilas de outrora.

Sempre que prevemos uma catástrofe, as pessoas pesquisam, procuram fotos, imagens da dor que a catástrofe pode nos causar porém, é tão momentânea a fascinação que duvido que qualquer um dos meus leitores lembrava, até esta linha, que uma onda gigante molhou os pés de mais de um milhão de pessoas, levando a vida de centenas de milhares.

Na época do ocorrido, todos olhavam "inconformados" as fotos, os milhares de corpos enegrecidos que cobriam as praias, a foto de um braço decomposto e uma mulher chorando, imagens de quadros que tinham as fotos dos cadáveres. A tensão de ver a morte é atraente para os humanos, é incontrolável o desejo de abrir o jornal e correr para a seção de acidentes ou catástrofes à menos que você tenha apostado em algum esporte ou na bolsa de valores.

Estou errado? Se estou, por que temos tantos seriados de crimes e mistérios (aka. assassinatos) na nossa televisão? Por que tantos livros que descrevem impecavelmente a morte de pessoas para dar a dramatização necessária para cada fato?

Não me esqueço do primeiro capítulo de "A Caçada de Amanda", que descreve um Boeing 747-400 que se desintegra sobre um subúrbio americano. A descrição do que aconteceu com os 370 passageiros era, no mínimo, tocante. Cada detalhe friamente descrito. Cada parte do avião cuidadosamente trajetoriada até seu destino sangrento. A ausência de esperança para quem pegava fogo era fascinante, nauseante, porém fascinante.

Aposto que muitos que lerão este texto procurarão no Google pela descrição da parte acima. Não se preocupe. Boeings 747 se desintegram com mais freqüência do que o leitor imagina. Porém, a mídia tem o pudor de descrever as mortes sem fotos, já é mais do que o bastante para chamar a atenção.

Basta lembrar também de dois acidentes aérios brasileiros. Um envolveu um Boeing 737-800 "trincando de novo" da empresa aérea GOL que teve um triste fim no meio da amazônia e o outro, um Airbus A320 que se acidentou no meio da capital econômica do país.

O número de mortos foi bem próximo um do outro, porém, não existem fotos do acidente do Boeing e, portanto, houve uma repercursão na mídia baseada em meras descrições do ocorrido, sem fazer idéia da escala da destruição. Já o outro, quem não lembra da cauda vermelha "igual às da Virgin" em chamas, enterrada em um galpão da empresa? O país chorou pelo segundo acidente com pesar e o primeiro? Esquecido por boa parte da população.

Concluindo, não digo que toda a humanidade é sádica. Só digo que o fim é pra ela fascinante e que os últimos momentos, as últimas lembranças, os últimos gritos gravados na caixa-preta, são bem mais interessantes do que a cura, a salvação e as coisas "bonitas" da vida. O fim é um tema inevitável para qualquer mente. Ai da humanidade se pensasse no que acontecerá em 2012. Tantas previsões que se mostraram verdadeiras até agora rumam para o que já foi previsto por vários através da história que me pergunto se assistiremos este final pela televisão.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Preço da Morte.

Olhe para trás, caro leitor, e veja quantas vezes pagamos com nossa vida por uma conquista. Veja quantos deram a vida para dominar os oceanos, quantos pereceram para alcançar o vôo perfeito e olhe nos rostos dos que morreram ao tentar tomar o espaço.
A vida é um preço pequeno demais para algumas conquistas. O que quero dizer é que há coisas pelas quais realmente fale a pena dar a vida em troca. Arriscar a vida por um vôo tripulado para fora de nosso planeta? Um preço justo. Arriscar a vida para sentir a liberdade dos ares? Mais do que justo. Dar a vida para conhecer as águas mais turvas? Não há como hesitar.
Na vida, uma das poucas coisas que podemos escolher é a forma da nossa morte. Morrer sem jamais ter vivido, sem jamais ter visto a liberdade nua em pêlo não é um preço pelo qual valha dar sua vida. Viver sem conhecer o mundo? Sem ter histórias? Sem se arriscar nunca? Essa é uma das poucas vezes que podemos nos dar o luxo de fazer tantas façanhas. Jogá-las todas fora apenas para poder morrer seguro não é sequer uma condição razoável de vida.
Como o leito sabe, existem poucas coisas que me fascinam de verdade e uma delas é o ar. Voar é, para mim, o auge da liberdade humana. Se sustentar no ar é uma experiência pela qual eu estaria disposto a dar minha vida. E não sou o único. Quantos pilotos fazem suas rotas sabendo que cada viagem poderá ser sua última? Vale a pena.
Nossa vida tem um valor muito ínfimo se comparada com as oportunidades que temos. Dar a vida por algo único é a garantia de ter vivido além do que muitos viveram. É a garantia de ter chegado no ínfimo limite entre a vida e a morte. Se sairmos com vida, pois bem. Se não, cruzamos o limite, fomos além.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco