Tenho pensado muito no fim de tudo, no dia em que olharemos para o céu e veremos fogo. Essa suposição, por algum motivo me fascina muito, ver a chuva caindo sobre o chão vermelho, sem nenhuma certeza do que virá amanhã.
Pode ser este o sonho mais profundo de todo homem. Tudo que criamos, cientificamente, tenta justificar o começo de tudo, a origem da vida, da existência, como começamos a pensar... Não queremos saber o porquê de tudo e sim o final.
O final de toda a criação fascina o homem desde novo. Prédios caindo, desgraças maiores, desastres aéreos, naufrágios trágicos e tudo que nos deixa com sentimento de ausência de esperança nos chama muita atenção. É só pensarmos em quantos bilhões de pessoas se fascinaram com um par de prédios que caiu há alguns anos.
A morte fascina o homem não pelas suas conseqüências e sim pelo seu momento, o deixar da vida. Por algum motivo, amamos ver a última faisca da esperança, torcer para um final diferente do óbvio, rezar para que os manetes de potência sejam corrigidos, ou que o único F-16 da USAF consiga abater o 767 indefeso antes que este se transforme na predição das sibilas de outrora.
Sempre que prevemos uma catástrofe, as pessoas pesquisam, procuram fotos, imagens da dor que a catástrofe pode nos causar porém, é tão momentânea a fascinação que duvido que qualquer um dos meus leitores lembrava, até esta linha, que uma onda gigante molhou os pés de mais de um milhão de pessoas, levando a vida de centenas de milhares.
Na época do ocorrido, todos olhavam "inconformados" as fotos, os milhares de corpos enegrecidos que cobriam as praias, a foto de um braço decomposto e uma mulher chorando, imagens de quadros que tinham as fotos dos cadáveres. A tensão de ver a morte é atraente para os humanos, é incontrolável o desejo de abrir o jornal e correr para a seção de acidentes ou catástrofes à menos que você tenha apostado em algum esporte ou na bolsa de valores.
Estou errado? Se estou, por que temos tantos seriados de crimes e mistérios (aka. assassinatos) na nossa televisão? Por que tantos livros que descrevem impecavelmente a morte de pessoas para dar a dramatização necessária para cada fato?
Não me esqueço do primeiro capítulo de "A Caçada de Amanda", que descreve um Boeing 747-400 que se desintegra sobre um subúrbio americano. A descrição do que aconteceu com os 370 passageiros era, no mínimo, tocante. Cada detalhe friamente descrito. Cada parte do avião cuidadosamente trajetoriada até seu destino sangrento. A ausência de esperança para quem pegava fogo era fascinante, nauseante, porém fascinante.
Aposto que muitos que lerão este texto procurarão no Google pela descrição da parte acima. Não se preocupe. Boeings 747 se desintegram com mais freqüência do que o leitor imagina. Porém, a mídia tem o pudor de descrever as mortes sem fotos, já é mais do que o bastante para chamar a atenção.
Basta lembrar também de dois acidentes aérios brasileiros. Um envolveu um Boeing 737-800 "trincando de novo" da empresa aérea GOL que teve um triste fim no meio da amazônia e o outro, um Airbus A320 que se acidentou no meio da capital econômica do país.
O número de mortos foi bem próximo um do outro, porém, não existem fotos do acidente do Boeing e, portanto, houve uma repercursão na mídia baseada em meras descrições do ocorrido, sem fazer idéia da escala da destruição. Já o outro, quem não lembra da cauda vermelha "igual às da Virgin" em chamas, enterrada em um galpão da empresa? O país chorou pelo segundo acidente com pesar e o primeiro? Esquecido por boa parte da população.
Concluindo, não digo que toda a humanidade é sádica. Só digo que o fim é pra ela fascinante e que os últimos momentos, as últimas lembranças, os últimos gritos gravados na caixa-preta, são bem mais interessantes do que a cura, a salvação e as coisas "bonitas" da vida. O fim é um tema inevitável para qualquer mente. Ai da humanidade se pensasse no que acontecerá em 2012. Tantas previsões que se mostraram verdadeiras até agora rumam para o que já foi previsto por vários através da história que me pergunto se assistiremos este final pela televisão.
Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas