segunda-feira, 10 de novembro de 2008

O Vôo AU273

Ao leitor, este texto é relacionado ao jogo Fallout 3.

Nunca pude imaginar que o número 23 me deixasse tão amargo...

Agora eu escrevo este texto para deixar para a posteridade a forma com que vim parar aqui e também para informar aos que lêem que o mundo não se limita às Wastelands e que, há muito tempo, existia outro continente, conhecido como Europa.

Eu, naquele ano de 2077, era Comandante de aeronaves comerciais de uma empresa chamada American United. Aeronaves eram, na melhor descrição que já conheci, como ônibus, porém elas voavam alto, além das nuvens e podiam levar centenas de pessoas, passageiros do ônibus chamado de avião.

Na manhã do dia 23 de Outubro do ano de 2077, também conhecido como o dia da Grande Guerra, caía em Berlim uma tempestade enorme: às 6:00 da manhã, o dia parecia noite. O motor do Chrysalis americano rugia, e passávamos eu e o motorista da empresa como um raio pelas largas Highways alemãs. Os Chrysalis usavam como combustível as células de micro fusão que hoje são usadas apenas em armas.

Cheguei ao aeroporto internacional de Berlin bem a tempo de começar os procedimentos de vôo. Aos poucos, a chuva cedeu lugar a uma manhã clara e gélida. A aeronave, após as manobras computadorizadas de taxi, encarregadas de retirar a aeronave de seu “estacionamento” e levá-la até o local onde os passageiros embarcavam, já estava à minha espera.

Passando pelo finger, túneis que levavam os passageiros até a aeronave, observei com um brilho nos olhos aquele belo pássaro azul marinho, com elegantes listras vermelhas. O Boeing 727-900ER era a aeronave mais nova da empresa. Desde que o petróleo se tornara caro demais para ser gasto com o transporte, os jatos passaram a ser reciclados e este 727 em especial, havia sido construído há quase 100 anos antes daquele dia.

Entre as modificações estavam os poderosos reatores de fusão que movimentavam as três turbinas do elegante jato. A fuselagem era mais longa, permitindo que 230 passageiros se acomodassem em três classes diferentes. Éramos o topo da aviação mundial e nosso vôo, um dos quatro únicos que ligavam a América à Europa naqueles tempos de crise, sempre estava lotado.

Já na cabine, encontrei a Primeira Oficial, que me ajudava a pilotar o avião, e o Engenheiro de Vôo, assistente muito útil em viagens longas, fitando os monitores de fósforo, que mostravam o status da aeronave em textos e diagramas que apareciam em verde na tela escura e imprópria. A falta do petróleo levou a humanidade há um retorno aos primórdios da tecnologia, mas ainda assim, voar era seguro.

Após os cumprimentos, começamos os procedimentos de segurança rotineiros: Checamos os instrumentos eletrônicos e os analógicos, todos funcionavam. Os atendentes de bordo se posicionavam em seus assentos logo após os passageiros entrarem, enquanto dois robôs, conhecidos como Air-Handy, uma variante aérea dos Mr. Handy, apresentavam os passageiros aos seus lugares e faziam o speech sobre os procedimentos de segurança.

A realidade é que se um avião daqueles tocasse o solo sem o devido cuidado, o efeito seria bem próximo ao de uma explosão termo-nuclear, porém, acredito que dizer isso aos passageiros não seria nada elegante.

Após 15 minutos, nos posicionávamos na cabeceira da pista 07L do novíssimo aeroporto de Brandenburg. Fizemos a última checagem quando tive a confirmação da torre de controle. O prazer de mover o manche para frente e sentir os dois Pratt & Whitney JT8-NF rugirem como se fossem voar e deixar a fuselagem para trás. Em minutos, saíamos de Berlim, rumo a uma viagem sem paradas até Washington D.C., a capital do até então Estados Unidos da América.

O mundo acabou quando estávamos deixando o continente. Eu acabava de perder as praias de vista quando uma tremenda turbulência arrancou o manche de minha mão, me jogando de encontro com o painel. No fundo da aeronave, ouvi gritos, e diversos alarmes soaram. Automaticamente, o aviso de turbulência se acendeu na cabine, porém, diversos passageiros já apresentavam ferimentos graves. Os robôs tentavam em vão acalmar os passageiros enquanto nós, da cabine, tentávamos controlar o avião, que guinava violentamente para a esquerda.

Nosso leme havia travado em sua posição na hora da turbulência e isso estava desestabilizando seriamente a aeronave. Nosso engenheiro de vôo acionava as medidas que reiniciavam às posições das superfícies da aeronave, o que certamente resolveria o problema. A primeira-oficial tentava contato com a torre de Lisboa para o retorno urgente da aeronave e eu permaneci estático: Aquilo não havia sido turbulência.

O rádio permanecerá mudo nas freqüências das torres. O canal do tráfego aéreo ficará caótico e cacofônico, cheio de estática, algo de muito horrível havia acontecido. Tomei a ríspida decisão de não voltar a aeronave para Berlim. Éramos treinados para retornar aos EUA em caso de ataque nuclear e assim eu procederia.

Ninguém na cabine entendia a minha conclusão, tive que explicar cuidadosamente para eles: Todas as torres locais haviam parado de responder e o tráfego aéreo estava caótico. Mesmo que se tratasse somente de mais um bombardeio em Lisboa, eu não voltaria o avião para um campo de guerra.

Todos concordaram e eu comecei o célebre speech, meu ápice como comandante, aos passageiros do vôo que ainda tinham condições de me ouvir:

“Senhores passageiros, aqui quem fala é o Capitão Brenning. Fomos atingidos por uma onda de choque, resultado provável de uma explosão, e perdemos o contato com as torres portuguesas. Por ordem do Sr. Presidente no estatuto desta companhia, em casos de situações extremas militares, este avião só deverá pousar em solo americano. O avião não foi severamente avariado e, sendo assim, a próxima parada é Washington D.C.. Que Deus tenha piedade de nossas almas.”

O caos continuou por mais cerca de duas horas. O avião estava estável, havíamos perdido alguns sistemas secundários e já tínhamos contabilizadas sete mortes devido ao choque que sofremos. No horizonte, nada além de algumas nuvens. No rádio, recebemos a mensagem automática de emergência da costa portuguesa e já tínhamos certeza de que Portugal havia sido varrido do mapa por armas nucleares. O código laranja dizia que nem mesmo o presidente havia sobrevivido.

Cerca de meia hora após a trágica descoberta, avistamos uma enorme aeronave azul e vermelha igual à nossa, porém, sendo perseguida por uma fumaça negra e fatal. Conseguimos contato no canal da American United e com a proximidade, descobrimos que aquele pássaro ferido mortalmente era um Boeing 747-8, o único da companhia. Seus dois andares estavam com a fuselagem enegrecida, suas asas haviam se decomposto em suas bordas, formando assustadoras estruturas negras e, de suas turbinas sem a fuselagem protetora, víamos a fumaça negra, que para uma aeronave, era semelhante a um grave sangramento.

O contato foi breve, o comandante deles gritava:

“Mayday, mayday, mayday, AU747 para tráfego, mayday, mayday, mayday…”
Respondi calmamente:

“AU747, aqui é o AU273, qual é a natureza emergência?”

E a resposta voltou:

“AU273, é ótimo ouvir sua voz! Fomos atingidos, a América foi atingida por bombas de hidrogênio, decolamos do JFK no momento da explosão, várias janelas explodiram, sofremos descompressão, motor 1 e 3 pararam de funcionar e estamos perdendo óleo para o motor 2. Perdemos o controle hidráulico do leme e... A coisa está bem feia, vários feridos, vários mortos...”

Pensei por um momento:

“AU747, quantas almas a bordo? Consegue fazer até Berlin ou Londres?”

“AU273, temos 413 almas a bordo e... Não. Acho que não vamos chegar tão longe. Lisboa... Talvez Madri...”

“AU747, fomos atingidos por uma onda de impacto, acredito que Lisboa não seja uma opção...”

Com um grito sem emoção alguma, o comandante disse:

“Não posso amerissar esse avião!”

E eu instruí, no momento em que o avião tomava a direção de Londres:

“Alije os reatores e use a energia auxiliar para pousar o avião a uns 160 nós na água, acho que pode ser sua única chance!”

O avião começara a inclinar: O motor dois estava morto e o desespero tomara conta da outra cabine:

“Meu Deus! Meu Deus! Perdemos o motor dois! Alijar os reatores imediatamente, começar os procedimentos de segurança!”

Neste momento, uma violenta explosão arranca a asa esquerda do enorme Boeing 747, abrindo um monumental rombo em sua já danificada fuselagem. A aeronave se desfazia em pleno vôo. Emborcado, o pássaro que fora fabricado no ano de 2015, aos poucos rumava para o seu leito de morte no fundo do Atlântico:

“Mayday, mayday, mayday!”

A aeronave se chocou na água, a frase acima foi repetida 3 vezes antes do enorme jumbo se desintegrar junto com seus 413 passageiros e tripulantes no meio do oceano Atlântico. O choque provavelmente fora indolor para seus passageiros, porém a expressão minha e de meus amigos, era da mais profunda tristeza: A América perdia quatro centenas de seus raros sobreviventes.

O restante da viagem se seguiu no mais profundo silêncio. Um par de alarmes soava baixo. Os passageiros haviam se calado, alguns choravam baixo, outros olhavam pelas janelas para o vasto oceano.

Pensamos em mudar a rota para o Brasil, sabíamos que lá existia um par de aeroportos desativados que poderiam nos receber, porém no fundo, sabíamos que o mundo havia acabado.

Captamos no radar apenas mais um par de sinais, que pela velocidade em que voavam, pareciam ICBMs que viajavam até seus destinos finais. O silêncio durou até vermos a costa americana.


Nos céus, vários cogumelos negros. Washington não passava de fumaça. Com o nosso aproximar, não conseguíamos contato com nenhuma torre, porém, captamos o sinal ILS da torre de Washington. Rezamos para que nosso avião pudesse aterrissar no aeroporto mesmo com os tais cogumelos.


Sobrevoamos a cidade e apenas vimos o Monumento de Washington inteiro. A fumaça e o caos era assustador. Aproximamos-nos do aeroporto e uma dezena de alarmes soou: Radiação em altos níveis. Enquanto orbitávamos, fiz o speech final:

“Senhores passageiros, temos uma situação de emergência, pedimos que todos peguem as máscaras de oxigênio que caíram e retirem-nas do suporte, de forma a levá-las para onde forem. Sairemos do avião ordenadamente e seguiremos para o abrigo da Segurança Nacional do aeroporto. Peço que se mantenham juntos e rezem para que os abrigos ainda estejam abertos.”

Já vendo a pista, agradeci a qualquer que fosse a força maior da época pela pista estar livre de destroços, apesar da torre de controle e de parte do terminal estarem em chamas. O avião pousou sem problemas, aguardamos cerca de dois minutos para abrir as portas.

A partir daqui, a história é horrível. Fazem 200 anos exatos que tudo aconteceu, mas a dor é a mesma. Das pessoas que estavam na rua, no momento da explosão, restaram apenas suas imagens impressas em negro nas paredes que ainda se mantinham erguidas. Quando não, víamos corpos em estados indescritíveis.

A radiação era extrema, seguimos para os abrigos apenas para ver uma centena de corpos em chamas, pessoas que tentaram entrar após o fechamento das portas.

Fugimos para o metrô, acampamos próximo a um beco que havia desabado, nos dando certa proteção contra os saqueadores. A morte por radiação fez metade da tripulação sucumbir rapidamente. Crianças e velhos primeiro, depois as mulheres em sua maioria.
O excesso da radiação deixava os mortos tão horrendos, que os moribundos ficavam em uma sala fechada. Toda noite, eu e mais dois camaradas entrávamos e retirávamos os corpos em segredo, jogando em uma vala profunda.

Com o passar do tempo, me transformei no que hoje sou. Um ghoul. Minha pele rachou, perdeu o brilho e passou a cair. Meus companheiros morreram todos em no máximo cinco anos após a queda das bombas e eu continuei.

Continuei por 237 anos a ver o mundo mudar. Hoje, evoluímos muito: Já estamos próximos ao que fomos um dia, no período neolítico.

sábado, 11 de outubro de 2008

O Viajante.

Manhãs como aquela foram feitas para os viajantes, aqueles cujas almas jamais encontravam a paz onde quer que estejam, exceto sob o brilho do sol rumo, rumando para um próximo lugar.

 O vento carregava as folhas em uma dança eterna e, justo delas, ia uma pessoa em sua viajem. O jovem não podia passar dos vinte anos, trajando uma pesada capa de viajem acinzentada por cima de suas roupas de algodão sem cor. Em seus pés, uma bota que há muito já fazia parte dele. Em sua cintura, uma gasta bainha denunciava uma espada detentora de muitas batalhas. O fardo em suas costas era leve para um viajante, ele possivelmente caçava muito bem.

Seu rosto era antigo, cansado para um rapaz daquela idade. Seus cabelos mostravam algum cuidado e esvoaçavam com os picos de vento. Seu caminhar um tanto lento denunciava sua exaustão e sua expressão mostrava que o sol começava a cegar-lhe.

 Há muito que fugira de seu mundo. Deixara para trás sua casa, seus pais, parentes e os que um dia ele chamara de amigos. Olhava sempre para frente, deixando para trás tudo em que começava a dar valor. Seus amigos vinham e iam, a morte jamais fora de poupar esforços em lhe manter sozinho.

Seu único sonho era o rumo que suas botas há muito indicavam. Jamais pegava estradas, jamais tivera um mapa, jamais carregara a ambição de ser famoso, um caçador de aventuras. Juntava-se com algumas pessoas por vez ou outra, porém, era sempre a mesma coisa. Por algum motivo, tudo à volta dele era marcado para a morte.

Alguns vilarejos prometiam a cura para maldições, porém, todos estes curandeiros haviam falhado miseravelmente. Essa falha trazia a morte e, claro, os que o conheciam sabiam manter distância.

Para o viajante só restava a sua jornada. Ele andava porque esperar a morte é algo complicado. Na verdade, ele apenas sabia que a sua vida era preciosa demais para a morte e, de tudo que ele já havia cedido, ele não cederia mais este prazer.

Darvius Alexandros III

O Bardo das Trevas

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Freedom Has a Meaning For Me.

A palavra liberdade é tão bela, carrega tantos valores, tantas batalhas, enfim, tanta história, que adoro pensar nela. A liberdade é livre pensar, é o ir e vir, e o escolher de todos, viver sem limites... Tudo isso em uma simples palavra.

Quem me dera ser livre. Alguns arriscariam dizer: "Ora, mas você estuda fora na melhor universidade do país, com certeza nada te impede de fazer o que você quer". Ledo engano de quem não me conhece.

Liberdade para pensar? Olhe o que escrevo e olhe o repúdio que sentes sempre que abre esta página! Isso é liberdade? Liberdade de expressão? Tanto trabalho para me encaixar na frívola etiqueta humana certamente não classificam a liberdade. Liberdade de ir e vir? De tempo? Sou um estudante, eu não deveria sequer estar aqui escrevendo tudo isso.

A única liberdade que possuo e que mais me agrada é em meus sonhos. Geralmente estou sozinho, num ambiente onde o horizonte não trás traços de humanidade (pelo menos, não de humanidade recente). Ando sozinho, ou com um cachorro ou amigo de muito tempo, e sempre (SEMPRE) estou armado. Seja com a Black Margot, criada para esses fins, seja com um velho fuzil ou rifle. As vezes, meu sonho ocorre comigo apenas vagando, as vezes visito cenários que já vi na ficção, e algumas vezes morro.

Para mim, há apenas duas coisas que posso chamar de liberdade: A morte e o contato extremo com o desolado da natureza. Meu sonhos sempre traçam uma linha muito fina entre ambas as formas de liberdade e de uma cosia tenho ceteza: Poucos dividem essa vontade comigo.

Um mundo sem relógios, onde o sobreviver já é mais do que o bastante. Onde o contato com a natureza é tão grande que, independente da fé, a natureza é uma força divina e deve ser respeitada.

Penso atualmente na Zone, uma porção próxima à uma antiga usina nuclear cujo reator se fundiu há vários anos. Aquele lugar desolado, misterioso, cheio de lembranças, porém, na auzência total da humanidade.

Não penses que quero o fim da humanidade. Apenas gosto da solidão ou de estar na presença de pessoas para quem não preciso atuar. Atuar é difícil e tem um custo enorme para o meu corpo e minha alma. Não consigo fazê-lo mais como eu gostaria.

Estou bem próximo do fundo do poço, ando controlando meu corpo como se minha alma não mais quisesse se mostrar ao mundo. Vou explodir, eu sei. Sei que não conseguirei repreender meu vício na forma mais extrema de sua existência e sei o tanto que isso é perigoso para os outros.

Por mais que eu esconda minha natureza real, no fundo, eu sei que não vou conseguir. Vamos rezar para que seja apenas mais um teatro, onde o público nem sonha que a peça tocada é a mais crua realidade. Preciso selecionar os atores com cuidado, muito cuidado, já que não tenho contato com os antigos atores.

Tudo muda exceto o bardo, já diziam as canções... Tudo muda exceto o bardo.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O Fim.

Tenho pensado muito no fim de tudo, no dia em que olharemos para o céu e veremos fogo. Essa suposição, por algum motivo me fascina muito, ver a chuva caindo sobre o chão vermelho, sem nenhuma certeza do que virá amanhã.

Pode ser este o sonho mais profundo de todo homem. Tudo que criamos, cientificamente, tenta justificar o começo de tudo, a origem da vida, da existência, como começamos a pensar... Não queremos saber o porquê de tudo e sim o final.

O final de toda a criação fascina o homem desde novo. Prédios caindo, desgraças maiores, desastres aéreos, naufrágios trágicos e tudo que nos deixa com sentimento de ausência de esperança nos chama muita atenção. É só pensarmos em quantos bilhões de pessoas se fascinaram com um par de prédios que caiu há alguns anos.

A morte fascina o homem não pelas suas conseqüências e sim pelo seu momento, o deixar da vida. Por algum motivo, amamos ver a última faisca da esperança, torcer para um final diferente do óbvio, rezar para que os manetes de potência sejam corrigidos, ou que o único F-16 da USAF consiga abater o 767 indefeso antes que este se transforme na predição das sibilas de outrora.

Sempre que prevemos uma catástrofe, as pessoas pesquisam, procuram fotos, imagens da dor que a catástrofe pode nos causar porém, é tão momentânea a fascinação que duvido que qualquer um dos meus leitores lembrava, até esta linha, que uma onda gigante molhou os pés de mais de um milhão de pessoas, levando a vida de centenas de milhares.

Na época do ocorrido, todos olhavam "inconformados" as fotos, os milhares de corpos enegrecidos que cobriam as praias, a foto de um braço decomposto e uma mulher chorando, imagens de quadros que tinham as fotos dos cadáveres. A tensão de ver a morte é atraente para os humanos, é incontrolável o desejo de abrir o jornal e correr para a seção de acidentes ou catástrofes à menos que você tenha apostado em algum esporte ou na bolsa de valores.

Estou errado? Se estou, por que temos tantos seriados de crimes e mistérios (aka. assassinatos) na nossa televisão? Por que tantos livros que descrevem impecavelmente a morte de pessoas para dar a dramatização necessária para cada fato?

Não me esqueço do primeiro capítulo de "A Caçada de Amanda", que descreve um Boeing 747-400 que se desintegra sobre um subúrbio americano. A descrição do que aconteceu com os 370 passageiros era, no mínimo, tocante. Cada detalhe friamente descrito. Cada parte do avião cuidadosamente trajetoriada até seu destino sangrento. A ausência de esperança para quem pegava fogo era fascinante, nauseante, porém fascinante.

Aposto que muitos que lerão este texto procurarão no Google pela descrição da parte acima. Não se preocupe. Boeings 747 se desintegram com mais freqüência do que o leitor imagina. Porém, a mídia tem o pudor de descrever as mortes sem fotos, já é mais do que o bastante para chamar a atenção.

Basta lembrar também de dois acidentes aérios brasileiros. Um envolveu um Boeing 737-800 "trincando de novo" da empresa aérea GOL que teve um triste fim no meio da amazônia e o outro, um Airbus A320 que se acidentou no meio da capital econômica do país.

O número de mortos foi bem próximo um do outro, porém, não existem fotos do acidente do Boeing e, portanto, houve uma repercursão na mídia baseada em meras descrições do ocorrido, sem fazer idéia da escala da destruição. Já o outro, quem não lembra da cauda vermelha "igual às da Virgin" em chamas, enterrada em um galpão da empresa? O país chorou pelo segundo acidente com pesar e o primeiro? Esquecido por boa parte da população.

Concluindo, não digo que toda a humanidade é sádica. Só digo que o fim é pra ela fascinante e que os últimos momentos, as últimas lembranças, os últimos gritos gravados na caixa-preta, são bem mais interessantes do que a cura, a salvação e as coisas "bonitas" da vida. O fim é um tema inevitável para qualquer mente. Ai da humanidade se pensasse no que acontecerá em 2012. Tantas previsões que se mostraram verdadeiras até agora rumam para o que já foi previsto por vários através da história que me pergunto se assistiremos este final pela televisão.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

O Preço da Morte.

Olhe para trás, caro leitor, e veja quantas vezes pagamos com nossa vida por uma conquista. Veja quantos deram a vida para dominar os oceanos, quantos pereceram para alcançar o vôo perfeito e olhe nos rostos dos que morreram ao tentar tomar o espaço.
A vida é um preço pequeno demais para algumas conquistas. O que quero dizer é que há coisas pelas quais realmente fale a pena dar a vida em troca. Arriscar a vida por um vôo tripulado para fora de nosso planeta? Um preço justo. Arriscar a vida para sentir a liberdade dos ares? Mais do que justo. Dar a vida para conhecer as águas mais turvas? Não há como hesitar.
Na vida, uma das poucas coisas que podemos escolher é a forma da nossa morte. Morrer sem jamais ter vivido, sem jamais ter visto a liberdade nua em pêlo não é um preço pelo qual valha dar sua vida. Viver sem conhecer o mundo? Sem ter histórias? Sem se arriscar nunca? Essa é uma das poucas vezes que podemos nos dar o luxo de fazer tantas façanhas. Jogá-las todas fora apenas para poder morrer seguro não é sequer uma condição razoável de vida.
Como o leito sabe, existem poucas coisas que me fascinam de verdade e uma delas é o ar. Voar é, para mim, o auge da liberdade humana. Se sustentar no ar é uma experiência pela qual eu estaria disposto a dar minha vida. E não sou o único. Quantos pilotos fazem suas rotas sabendo que cada viagem poderá ser sua última? Vale a pena.
Nossa vida tem um valor muito ínfimo se comparada com as oportunidades que temos. Dar a vida por algo único é a garantia de ter vivido além do que muitos viveram. É a garantia de ter chegado no ínfimo limite entre a vida e a morte. Se sairmos com vida, pois bem. Se não, cruzamos o limite, fomos além.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

The fate of a Bard

Sou um bardo. Talvez não nesta vida, para a minha sorte, porém, em outras...
Acreditar em outras vidas é a única coisa que leva este bardo além da prisão corpórea dele. Alias, é a única coisa que o impede de colocar uma bala em seu cortex, apenas para ver se mais lembranças surgem. Ninguém lê este lugar. Já é talvez, o meu segundo maior cofre de segredos e verdades.
É fantástico como minha vida é apenas um experimento social. Não passa de uma mentira. Tudo que sou, tudo que fiz, tudo que deixei de fazer. Mentiras. O que realmente sou está tão profundamente escondido, que meu antigo medo de falar demais já é um dos maiores passados. Não sou mais nada do que fui, estou sempre mudando minha face, minha aparência. Hoje, não passo de uma mistura de todas as pessoas que conheci. Sou apenas fatias de personalidades, fingindo muito bem que consigo viver neste mundo como se tudo fosse perfeito, normal ou, pelo menos, uma coisa não-nova para mim.
Apenas eu tenho a liberdade de escrever o que realmente sinto em um lugar tão público quanto a internet, sabendo que, por mais que meus maiores amigos, pessoas cuja alma é tão próxima da minha, leiam e releiam, jamais consigam abstrair um segundo de verdade deste local.
Nunca me levaram à sério quando falei que minha sanidade se foi naquele dia. NUNCA. Acreditam que o fato de eu ter conseguido uma vida social um tanto estável e muito acima da média dos outros em questão de contatos e afins é uma prova da minha sanidade. Sanidade?! Sanidade não pode ser isto. Não para mim. Não me acho superior à ninguém e sim, um esquecido pelo tempo.
Nunca vivi neste mundo. Não sei o que os outros fazem, como os outros fazem, enfim, aprendi como se anda na rua, em que se olha, de quem se desvia, o que fazer normalmente, o que fazer sob o efeito do alcool, enfim, sou tudo que estudei para ser: Um humano. Um ser humano mediocre como qualquer outro.
Em toda a minha vida, talvez eu tenha conhecido uma mão cheia de pessoas semelhantes à mim. Porém, como eu faço com os outros, elas fizeram comigo. Nós nos ignoramos totalmente. TOTALMENTE.
Sou apenas mais um de uma pequena massa, que caminha vivo, sem saber porque, procurando um motivo para ainda estar vivendo.

**

Maybe far far away I was a bard on the dark woods...
Maybe one day I've singed a song to you.
I really would like to remember
All the histories once they told me...
But I'm only a shadow
I cannot reach the older lives...

**


The lady once said
to the bard "Please keep it louder"
The lady once again
ask the bard to sing that song.

The lady of night
ever ask things to the bard.
In blue he keeps the sing
as alive as the night.

So wild are the peace-makers
(of) the night, their so alone!
So dark are the meanings
of the one who sings this song.

"Please, oh please make me sing,
one more time for your shining face!"
One bard that sings at night
shall not ask anything on he's life.

Oh, my liege!
Why should I keep in this life...
There are no bards,
no one who'll rescue me...
(in the night that falls)

Should I keep it loud
so anyone who ever listen?
Should I let it falls
as has felt the line of kings?!

I love to sing
on a dark night like this one.
There are no more kings
for a bard, I'm alone.

I need to see
another lady like the ones I saw
in other lives
was I sitting upon a throne?

They call me a bard,
but I don't know myself enough...
I lost my mind
in the quest where I'm alone.

What I've found 'till now?
More dark fates then no one had...
Have it worth my days?
Only the lady could've told.


Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Experimento Vault 18 - Fim

A continuação e o fim do conto sobre o Vault 18. Por algum motivo, este conto me parece tão longo, que resolvi ceifá-lo aqui, com as últimas palavras de Milles ao mundo. A linguagem computacional é a única tentativa que faço de descrever o que está acontecendo com nosso personagem por trás da frieza de descrição que um teclado pode fornecer. Eu acho que ficou ruim, ceifei muito cedo a história do Sr. Milles, o que é uma pena. Talvez eu faça outro final e descreva o Vault. Só para lembrar, várias predições se aproximam da humanidade. Talvez ainda não seja tarde para mudar. Talvez não vivamos até 2069 para ver a construção dos Vaults e até 2077 para sairmos dos cofres da Vault Tec. Dúvidas? Google it. Vault Tec é uma marca bem conhecida no mundo ficcional.

Um grande abraço,

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas



[inicio log_2]
[erro no sistema - log incompleto - pressione y para continuar]
Entrada no Terminal:
y
[continuando]


Dia 3, Mês 5, Ano 0:

Relevâncias: O objeto está inquieto. Talvez o dialogo tenha lhe dado motivos para crer que não está sozinho. O governo está pressionando a Vault-Tec, algo a ver com o incidente com a China. O objeto receberá hoje, no terminal, uma hora de noticias ao vivo do noticiário local, esperamos ver como ele se sente. Esperamos coletar em uma semana o próximo resultado, porém, teremos que desconectar a rede do terminal para uma espécie de exercício de comunicação entre os Vaults.

Entradas no terminal:
Olá?! Olá?! A transmissão parou! Tem como voltá-la? A transmissão estava importante, falando sobre o lançamento dos mísseis! É SÉRIO! PRECISO SABER SE VOCÊS AINDA ESTÃO AI! Senti um tremor estranho, algo está errado, o que está acontecendo? O repórter falou algo sobre nos abrigamos, ele estava brincando? O MUNDO ACABOU?!

Onde estão as lições de russo? O terminal está com defeito! Fica com uma imagem estranha no canto da tela, indicando presença de radiação, roupas especiais me foram dadas e uma nova porta abriu. Estou com medo de explorar, porém, segundo a placa em russo, caso uma ativação nuclear ocorresse, eu deveria correr para o fundo desse lugar. O que devo fazer?


[erro de comunicação: contato com 175 perdido. tentando novamente...]
[3]
[2]
[1]
[erro de comunicação: contato com 175 perdido. iniciando servidor 176...]
[3]
[2]
[1]
[erro de comunicação: contato com 176 perdido. iniciando contato primário...]
[estabelecendo conexão...]
[servidor encontrado - washington dc presidential emergence server unit]
[estabelecendo contato...]
[ERRO: perdendo diretivas de comunicação]
[atenção: mensagem visual estabelecida com o terminal]

Saída no Terminal:
erro: diretivas de comunicações rompidas
invasão detectada
por favor, pressione y para aceitar a comunicação.

Entrada no terminal:
y

Saída no Terminal:
Atenção. Os Estados Unidos da América estão em estado de emergência, código 18. Todos os abrigos nucleares deverão permanecer lacrados por 10 anos, conforme a norma 46 do código vermelho. O país se encontra, à partir de agora, em estado permanente de sítio e todos os ministros, senadores e funcionários públicos devem entrar em contato com a linha vermelha. Temos um código laranja. Todos os civis ao alcance desta mensagem devem permanecer abrigados, lacrar suas casas e se proteger contra a chuva radioativa, conforme informado no manual Fallout Protection, distribuído gratuitamente. Continue conectado à este terminal para receber noticias do estabelecimento do governo emergencial...

[erro - a finalização da transmissão falhou]

[erro: fim da memória disponível]

[fim log_2]

Entrada no terminal:
novo log_3 fita_4

[arquivo iniciado]
[arquivo gravado]
[exibindo arquivo]

[inicio log_3]
Então isso é tudo que o log possui? Eu era um experimento? Agora então estou preso em um buraco, enquanto o mundo lá fora arde? Certamente não tenho sorte. Tenho 10 anos em um abrigo nuclear que fora criado para armazenar 1000 pessoas por um período de até 100 anos e agora, estou aqui sozinho, nesta claridade irritante, com esta série de computadores barulhentos e fitas magnéticas. Estarei livre em 2077, assim espero.
Código laranja? O presidente, seu vice e seus assessores estão de fato mortos? Qualquer ministro será feito de presidente, alias, qualquer pessoa sã será considerada presidenciável. Código 18... Menos da metade dos postos emergenciais constataram o computador central, provavelmente o país está ardendo em chamas. Por que diabos não lotaram este abrigo? A natureza humana é simplesmente inexplicável, talvez seja algum castigo, já que merecemos. O mundo vai ter mudado bastante em 10 anos. É melhor eu explorar este lugar. Caso eu não volte, quem quer que abra este Vault, saibam que a humanidade ainda pode mudar. Eu mudarei aqui sozinho, caso eu falhe, ficará aqui registrado que um dia, um homem chamado Milles mudou.
[fim log_3]
[insira um comando válido:]

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Outra do velho bardo.

Certa vez tocava eu em um pequeno pub de Valkária, apenas aguardando o chamado da Dama de Branco, por quem eu ainda tinha forças para dar a vida, quando aconteceu essa rápida e profunda cena a qual descreverei, perdoe-me o leitor, na mais pura fidelidade dos fatos. A grande verdade é que andei muito por esse mundo, estou velho e ando me impressionando com fatos cada vez menores.

A noite desceu com o frio noturno que sempre cobria as areias próximas á cidade de Valkária, capital dos homens. Valkária era tão grande e bela, que nem mesmo os mais longínquos reinos cogitavam o mundo sem os portões enormes da mais pura madeira branca das proximidades de Nilo. A cidade imperial brilhava sempre, toda branca como no mais puro sonho de Lenna, a Deusa da Vida, ou na mais clara visão do deus Tillian, o Louco.
Sua importância estava em seu povo: As mais diversificadas nações marcaram sua presença na grande diversidade Valkariana, onde por mais truculentos que fossem seus habitantes, esses ainda tinham seu lugar na concorrida e abafada sociedade da cidade.
A aristocracia era conservadora ao máximo, protegia os princípios da boa moral e dos bons modos, porém, a realidade é que Valkaria era uma cidade que já não contava com o potencial econômico de outrora. Talvez o único luxo ainda existente dos bons tempos era a arena imperial que, infelizmente, deixava muito à desejar para a alta sociedade.
Assim, diversas tavernas abriram-se para abrigar um público relativamente abastado e ocioso, de forma que pudessem debater, expor suas idéias para visitantes, conseguir aventuras e vender seus dons para terceiros.
É exatamente em uma dessas tavernas que o velho bardo que lhes palestra cantava naquela noite fria, porém bela e que de alguma forma, era muito receptiva à canção:

"She is gone leaves are falling down
The tear maiden will not return
The seal of oblivion is broken
And a pure love's been turned into sin..."

O público assistia, hipnotizados com a letra bela que talvez falasse da filha desaparecida do Rei da cidade imperial. A música já vinha de eras atrás, cantadas por um grupo de bardos que têm seus nomes gravados nas pedras até hoje:

"Harvest of sorrow, your seed is grown
In a frozen world full of cries
When the ray of light shrinks
Shall cold winter nights begin!"

O público aplaudiu delicadamente a música: Eram quinze pessoas além do bardo e dos dois homens troncudos que faziam os trabalhos da taverna. Todos ouviram atenciosamente a música e cantaram trechos conhecidos da melodia e, à medida em que o bardo abaixava seu alaúde gasto e coberto de arranhões profundos, alguns curiosos se aproximavam fazendo sugestões.
O bardo já estava cansado, tocava apenas por prazer. Pegou uma bebida quente no balcão e sentou-se em sua mesa sozinho, analisando um mapa de diagramas planais, coisas que poucos além dos iniciados nas artes Dela poderiam entender.
Com uma pancada na mesa, um anão na mesa ao lado chamou, sem querer, a atenção do bardo para o assunto que aquele grupo pouco comum conversava: Um elfo, um anão e um humano na mesma mesa, onde o humano, com seus cabelos compridos amrradaos longamente às suas constas, apenas olhava para o tampo da mesa, pensativo. O elfo, conversava em tom febril, com uma mão sobre a mesa e outra em sua adaga, sempre alerta como todo ser imortal que aprendeu com o tempo as armadilhas da vida. Já o anão, estava quase de pé, com as faces vermelhas e exalando um cheiro áspero de fumo ruim que ardia ao faro de todos no local. O anão, exaltado, falava com uma voz tão áspera quanto seu cheiro:
-Pois elfos nunca entenderão o que é amor! Renegam até mesmo sua deusa criadora! Como podem ser tão egoístas?
E o elfo retrucara, olhando para o bardo pelo canto de seus olhos de um amarelo exótico:
-Nós, imortais, apenas morremos por causa da tristesa! O amor não só nos cura, como também nos mata em falta!
E novamente o anão:
-Ora, sim, deixastes quantos filhos neste mundo, caro Degoran?
E o elfo se calou, baixando sua guarda. Com uma rápida olhada, ele passa a pergunta para o humano:
-Mas nenhuma criatura pode saber menos sobre o amor do que os humanos! Gananciosos, egoístas, descuidados, mortais...
E o humano apenas levantou os olhos, bufando em poucas palavras:
-Somos mortais: Só temos tempo de amar uma vez na vida e, por isso, amamos com a intensidade de quem não possui outro dia para fazê-lo.
Anão e elfo se calaram, olhando para o centro do tampo da mesa, pensativos e ressentidos pela resposta que o mortal dera. Nesse momento, o bardo ergue-se e aplaude a resposta do humano, sendo seguido por uma parte do recinto que acompanhara o breve desfecho do diálogo. O bardo então sintetiza o fim da noite:

"Do que lhe vale tantos rubis
se apenas um lhe faz feliz?
A que lhe adianta ter longo fim
se o fim breve lhe bastará?

Por que se apegas ao amanhã
sendo que o hoje é a navalha
que ceifará o imortal
e lhe tirará a sua amada?

Se é tão breve o grande amor,
porque restringes o teu furor?
Se longo tempo ainda tens,
ainda usas de seu harém?"

O amor, tão longe da realidade do pobre bardo, para ele era apenas uma palvra com o mágico poder de gerar problemas. Por mais fora que ele sempre se sentiu de seu mundo e de sua raça, ele ainda assim possuia alguma esperança de, na sua imortalidade, encontrar o tal amor, viver o tal amor e até mesmo, morrer por essa palavra que soa tão doce aos lábios dos homens.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Experimento Vault 18

Logs de um experimento iniciado na década de 70 nos Estados Unidos, em abrigos nucleares criados com o propósito de proteger a população, porém, utilizados em testes de cunho social e psicológico. Os abrigos, criados e mantidos pela Vault Tec, são programados para se abrirem após um tempo determinado, no caso, em 10 anos. Todo o conteúdo é ficcional, qualquer semelhança com personagens reais, reações reais ou com lugares reais é pura coincidência. O conteúdo se baseia na série Fallout (google it).

[inicio log]

Experimento Vault 18
Objeto: Milles, J.
Idade: 23 anos.
Contato com o mundo externo: Esteve em Berlin duas vezes para atender um paciente.
Problemas de saúde: Categoria de alergias A.
Vícios: Cigarro, carne.
Condição Física: Mediano Atlético.
Formação: Bacharel em Psicologia – MIT.
Conhecimento Lingüístico Relevante: Inglês e Alemão.
Condição social: Desenvolvida e não estável.

Localização: Vault 18.
Equipamento: Cama, saneamento, alimentação remota e um terminal de comunicação sem conexão externa.
Observações: Ficha de instruções e todo o conteúdo escrito do Vault em Russo. Ocasionais apresentações de Russo básico no terminal por meio de texto. Fixa com equação cujo resultado mostrará a quantidade em dias do confinamento: Resultado: Infinito.
Objetivos: Analisar o progresso de um indivíduo de mentalidade superior à média ao lidar com o confinamento solitário e sua interação com o ambiente restrito. Verificação da capacidade do subconsciente de desenvolver conhecimento em áreas não dominadas à partir da tentativa e do erro. Verificação da evolução do relógio biológico na ausência de contato exterior.
Tempo estimado de experimento: Dez anos.
Objeto possui conhecimento das condições em que se envolve: Não.

Segue em anexo os dados de entrada no terminal, do primeiro para o último. Como as entradas eram constantes, o tempo em que o terminal permanecia ligado foi restrito ao uso mensal após os primeiros três dias.

Dia 1, Mês 0, Ano 0:

Entradas no terminal:
Malditos! Uma paciente em um abrigo nuclear?! Tirem-me daqui, conheço meus direitos.
[fim]
Vocês são loucos, não são? Estão me dando comida? Vão me manter aqui?
[fim]
A comida estava horrível, vocês são péssimos seqüestradores. Contatem minha família no 555-3985 e digam seu preço.
[fim]

Dia 2, Mês 0, Ano 0:

Relevâncias: O objeto analisou todo o Vault.

Entradas no terminal:
Não vou usar este banheiro. Nunca.
[fim]
A janta estava horrível. Já devem ter falado com a minha família, não é?
[fim]
Curiosidade: Porque está tudo EM RUSSO! Que porra de pessoa faz um abrigo todo decorado com o selo daqueles socialistas imundos?! IDIOTAS!
[fim]

Dia 3, Mês 0, Ano 0:

Relevâncias: O terminal exibiu sua primeira aula “Russo para Idiotas”.

Entrada pelo terminal:
Acordei mais cedo, acho... Quero café. Quero saber as horas também. Acho que vocês estão fazendo algum tipo de terror psicológico e estão mudando o horário de minhas refeições. Não se preocupe, eu lido com loucos o tempo todo, não vão conseguir me influenciar.
[fim]
VOCÊS ESTÃO BRINCANDO?! SEUS SOVIÉTICOS MALDITOS, FILHOS DE GANÇAS COMUNISTAS, RESTOLHOS DA GUERRA!!! NUNCA VÃO PEGAR MINHA MENTE, NEM COM ESSA BABOSEIRA DE AULAS RUSSAS!
[fim]
[nota pos]
A idéia de pegar um republicano realmente foi bem pensada, já que podemos analisar o inicio de uma paranóia. Esperamos que ele não pare de aceitar comida, caso contrário, ele estará morto em dez anos.
[fim]
O que querem dizer com restrição do terminal?! Vão cortar minha única forma de comunicação? Acham que vão ter os segredos da América assim? Esperem sentados. Já conseguiram contato com a embaixada? Aposto que posso valer a troca com algum espião incompetente de vocês.
[fim]

Dia 3, Mês 1, Ano 0:

Relevâncias: Conseguimos mudar a percepção dele quanto ao horário da comida. Ele tentou raspar nos aço das paredes as notações dos dias e do próprio tempo, porém, era uma tarefa árdua e ele desistiu. Finalmente ele encontrou a equação.

Entrada no terminal:
Vocês me mantiveram aqui por um ANO! UM ANO! Aposto como a polícia está no calcanhar de vocês. Estranho como pensaram em tudo. Deram até uma equação para eu resolver, mas sou um PSICÓLOGO! Não sou um maldito físico. Essa equação é uma piada, certo? Não pode ser a data em que serei libertado, se bem que não sei nada sobre aqueles símbolos escrotos que têm lá. De qualquer forma, parem de bater nas paredes! PAREM! Ou serão os ratos? Vocês estão aí!?
[fim]
Já falei para colocarem no rabo esses desenhos de aprendizado russo. Não preciso de russo.
[fim]
Posso contar a minha vida aqui? Aposto que vocês querem saber.
[fim]
[nota pos]
Não foi constatado nenhum tipo de barulho por nossos microfones.
[fim]

Dia 3, Mês 2, Ano 0:

Relevâncias: O vídeo foi ligado apenas à cada semana. A mudança de horários na alimentação influenciou totalmente o relógio biológico do objeto. Em uma das “noites”, ele acordou gritando muito, o que se mostrou um padrão. Os “barulhos” realmente o incomodam profundamente. Ele passou a chutar valores na equação e está começando à entender a resposta. Sua atenção à aula de russo deu-lhe conhecimentos chaves para ler a placa de instruções.

Entradas no terminal:
TIREM-ME DAQUI! ESSES BARULHOS ME DÃO NOS NERVOS. CONTAREI TUDO, APENAS ME TIREM DAQUI. SEI QUE A RESPOSTA DA EQUAÇÃO É UM NÚMERO ENORME E SEI QUE SE OS BARULHOS CONTINUAREM, EU NÃO VOU RESISTIR!
[fim]

Dia 3, Mês 3, Ano 0:

Relevâncias: O objeto foi mantido no escuro durante esse mês. Não tivemos contato visual, porém, o objeto gritou até perder a voz.

Entradas no terminal:
Loftrnhfdsfçpi oklçzavczs]a[ gtkasdfkçapcfwecvdpl dklçxsklçklççkxjkojkosdfjko ajoskdfjkolase adklçsdkopaacmoscmoe kpwodasmkpafnmofnodsdg k´pi123rio0wefpnm4348004 96e jopfsmpafm...
[fim*]
[nota pos]
O objeto esmurrou o teclado durante cerca de 4 horas seguidas, até cair exausto. O detector de lixos do terminal barrou os dados para poupas memória, por isso ocorreu o [fim*]
[fim]

Dia 3, Mês 4, Ano 0:

Relevâncias: O objeto parece estar aprendendo russo muito rapidamente, ou então, seu subconsciente foi forçado à ponto de lembrar de todas as aulas anteriores as quais ele desprezou. Ele começou à decifras a placa e está escrevendo as respostas com chocolate na parede.

Entradas no terminal:
Oi? Tem alguém ai fora? Alguém? O mundo acabou? Oi, não acabou não. Estou aqui. Quem é você? Sou Milles e você? Eu não me lembro direito. Porque estou aqui? Porque você foi mau. Lembra da bicicleta do Will? Lembro, mas não foi por mal! Você quase morreu. O trem quase pegou você. O céu está lindo, não é? É. Todo amarelo. Ataques nucleares fazem o mundo ficar amarelo. Doente. Sim, doente. Sua mãe, lembra? Sim, ficou doente. Mesmo, não é? E morreu. Jake também. Era um bom cão. O George sempre disse para não dar nome de gente para os cães, mas eu gostava de Jake. Ah! Eu sou o Jake, acho...
[fim*]
[nota pos]
Um diálogo! O subconsciente analisa o consciente e ambos acabam por de confundir! Uma pena termos poucos kilobits para armazenar o texto de 120 relatórios. A conversa durou até o fim do terminal!
[fim]

[fim arquivo log_1]
[por favor, manuseie com cuidado as fitas magnéticas, dados danificados são perdidos! coloque no inicio do aquivo log_2]

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

A vida, o universo e tudo mais...

Já dizia um de meus autores preferidos quanto ao universo:

1-Área: Infinita
O Guia do Mochileiro das Galáxias oferece a seguinte definição para a palavra : "Infinito":
Infinito: Maior que a maior de todas as coisas e um pouco mais que isso. Muito maior que isso, na verdade, realmente fantasticamente imenso, de um tamanho totalmente estonteante, tipo "puxa, isso é realmente grande!". O infinito é tão totalmente grande que, em comparação a ele, a grandeza em si parece ínfima. Gigantesco multiplicado por colossal multiplicado por estonteantemente enorme é o tipo de conceito que estamos tentando passar aqui


Ele dizia também que:

Se um dia alguém descobrir para que serve o universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e algo ainda mais estranho e improvável o substituirá.

Mas o principal e que sempre me tocou foi:

“O universo é grande. Grande, mesmo. Não dá pra acreditar o quanto ele é desmesurada, inconcebível, estonteantemente enorme. Você pode achar que da sua casa até a farmácia é longe, mas isso é café pequeno pro Universo.”

O universo foi concebido para o homem ou pelo homem? A diferença fundamental nessa pergunta é simples: Se não existisse vida no universo, ainda assim ele existiria?
O que quer que tenha tido o senso de humor para criar uma coisa tão bizarramente complexa como o nosso universo certamente pensou em habitá-lo: A parte mais legal de um feito é contá-lo para o próximo.
E assim, quando o grande criador (o grande lenço branco, ou deus, ou deuses, ou o que quer que seja) habitou o universo, ele passou à ser reconhecido como "O" cara. Veneraram ele, mataram o filho dele e até criaram guerras para decidir qual nome era o ideal para clamá-lo.
A inocência pode nos levar à crer até que o universo e esse "O" cara são os mesmos! Aí está o ledo engano. Se são os mesmos, então fomos concebidos pela natureza e não é possível que as coisas sejam tão simples assim. Alias, se fossem simples assim, neste exato momento, o universo estaria se contorcendo para parecer algo diferente.
O universo é uma ferramenta criada pelO cara. O universo deu condições para que a vida fosse concebida e que "O" cara pudesse se divertir às nossas custas. De qualquer forma, o universo não passa de uma réplica de nossas mentes. Tudo que existe, nós temos acesso e podemos editar, excluir, salvar... A grande vantagem foi manter o universo como um grande código fechado: Estável, seguro, porém com um alto preço por seus serviços.

Já dizia um outro CARA, alias, um Deus... Desculpa. Três Deuses em um, que o universo era um resultado direto de nossas concepções e de nossos pensamentos e vice-e-versa. A recursão anterior nos permite entender que o universo acontece em nossas mentes, porém, nós acontecemos ao mesmo tempo no universo. Confuso? E eu é que sou o louco.

Quando "O" cara fez o universo, ele quis ter certeza de que poderia criar centenas de raças, civilizações, bichos, fantasmas, robôs-com-37-vezes-a-idade-do-universo e administrá-los sem muito trabalho. Para isso, ele permitiu que nossas vontades fossem interpretadas e consumidas pelo próprio universo, que nos daria o que quer que desejássemos com maior intensidade.

Assim, "O" cara se veria livre de bilhões de pedidos por segundo e teria mais tempo para cuidar de seus outros universos mais importantes e bem feitos. O que Ele ("O" cara) não contava é que os humanos, justo a terceira raça mais capaz intelectualmente, fosse ter a grande idéia de trapacear o universo todo.

Vários humanos passaram à alterar o universo de acordo com sua vontade e, quanto maior essa vontade, maiores eram as alterações. Algumas leis do universo jamais puderam ser transpostas, porém, muito do impossível tornou-se possível.

Mas o que é realmente interessante nisso tudo é que, por mais que eu possa ter tudo que o universo me der à partir de sua manipulação, o que eu realmente mais desejo na atualidade está além das leis do próprio universo: Uma continuação para o fantástico "O guia do Mochileiro das Galáxias" do fabuloso Douglas Adams que, infelizmente, foi requisitado pelO cara para contar a maior história de todas as histórias que está escrita na sua "trilogia de quatro livros" no ano de 2001.

Uma pena que nem tudo no universo possa ser conseguido com uma toalha e uma velha bolsa de compras perdida há anos...

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

domingo, 24 de agosto de 2008

The old king

How can I save the soul of someone who is lost?
Is that my fate? Should I believe in your empty words?
Probably you are wrong...
But why you are that strong?
It's so though to resist... You say it, I shall make it happen.

Are you son of the king?
The true king who owns the old Gondor?
I'm falling toward your words, how can it be?

I only see shadows where you pass
and you still alive, so I'm wrong.
"I did my part, now it's your turn
and remember what you've promised."

You keep runing through the storm
I'll not follow.
You'll bring the Dark Age
I'll not buy it.

I'll wait the "Night fall"
"No sign of life did flicker
in floods of tears she cried"
Probably it will be all lost.

But I'm only a beginner
on the arts of the rules
maybe the next king
will tear down the walls
of you howled evil.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

O Cego e A Louca

Oh bardo o que pensas sobre essa canção?
Vês ouro e intriga pela multidão?
Seremos os tolos que vão mensionar?
Vivemos por pouco, então à cantar.

"Pois era o rei
o Cego então,
casado com a morte,
ardente paixão.

O cego não via
além de uma dama,
e o povo enfrentava
as mais duras chamas!

Mais uma maria (sic)
à governar,
suas mãos em sangue
o povo à queimar.

Quem dera as chamas
virassem canção!
Quem dera o povo
visse solução!

Matassem maria?
A morte outra vez?
Seria maria
sanguinária sem vez?

O rei nada via,
além de uma dama
e o povo enfrentava
as mais duras chamas!

O rei não podia
com a velha dama
e o povo morria
nas mais duras chamas!

Cantavam os bardos
mais de uma vez
maria, a louca
a dama da vez!

Contavam as trovas
dos tempos reais,
que as chamas azuis
brilhavam mais

Em vista da louca
e de seus vestais,
já que o rei não via
e o povo sofria.

O rei não sofria
com a dama da vez
mas o povo morria
nas chamas da lei!

O rei dos tolos,
maria, a louca,
o povo (oh povo)
os tolos da vez!"

Oh bardo se esperas
Nosso acreditar?
Maria? Louca? Ora vá!
Tão bela e inocente
O rei, tão valente!
Veras na história que errado estás!

"O bardo não erra,
jamais ele errou,
veja na história
o que a dama aprontou."

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

Novo Trem

A Lua tão bela à noite brilhou
trazendo suas chamas para as almas vazias
que na noite, sentadas, faziam
serenatas buscando o sentido.

O trem que seguira pela escuridão,
seguindo o rumo da razão
seguia em frente, mas sem mostrar
o rumo que um dia viera à tomar.

As almas que cantam aguardam
pela vinda de um novo trem:
Ficaram pedidas lá fora
à lua, tão mais além.

Pois veja amigo (esboce um sorriso)
Nada mais parece correr,
a vida está certa (e mais que concreta)
já que eu perdi outro trem.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

sábado, 9 de agosto de 2008

Amigo.

À um velho amigo, que não deve se lembrar de mim, mas que um dia inspirou minha vida.

Amigo,
Tanto lhe devo por tudo
que me envergonho em pensar
como dui te deixar
acusando-lhe de afundar
em lazarenta lama.

Hoje sou eu que peço
o que um dia pediste:
A desculpa por todo o tempo
que deixamos de passar.

Hoje vejo que errei
o barco que escolhi
não é o que tanto desejei;
Estavas tão certo como está.

Se um dia feri à você,
feri mais à mim,
alias, por você eu morri,
minha vida perdi para sempre.

Valeu a pena, me pergunto.
Valeu sim. Você não se lembra,
mas vivo estás: Tudo já vale.

Amigo se um dia veres
a veste que hoje uso
verás o fim que tomei com orgulho
e que a mortalha me cai bem.

Se me cai bem, mereço.
Se me faz mal, esqueço.
Mas sua vida vale,
é o que importa, o que prevalece.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

domingo, 3 de agosto de 2008

Reascunho: Passagem para uma guerra

Caro leitor,

O conto que se segue possui um início mórbido e pode, literalmente, causar alguma aflição ao leitor. Trata-se apenas de um resumo de uma história de, no máximo, três partes. Confira se quiser, mas por favor, evite qualquer associação entre mim e meu personagem. Agradeço sugestões e correções.

.::::.

Exatos 21 anos. Bem mais do que ele nunca previra viver. Achara aqueles 20 anos uma eternidade até que decidiu fazer a coisa certa: Voltar para o lugar onde passara os últimos séculos.

Existe certo consenso entre a maioria das religiões de que o suicídio é talvez o crime máximo contra a existência e, de alguma forma, Leonard Gondorra sabia que nas últimas três vidas ele nunca havia passado dos 22 anos. Não seria nesta que ele contestaria um novo recorde.

Na Austrália, a vida era tão boa que, para alguém que enfrentara o inferno outras duas vezes, chegava a dar nos nervos. Ele se lembrava de tudo, sabia de muito mais do que boa parte do “restolho”, assim ele chamava os mortais à sua volta.

Sua mãe jamais notaria a sua falta: Provavelmente veria o seu quarto e pensaria “Por que não coloquei o meu escritório aqui antes?”. Seu pai fugira de casa há alguns anos, passando a morar com a nova amante em uma casa a algumas quadras. Essa era uma vida comum e Leonard odiava isso com todas as suas forças.

Ele jamais conseguira ou tentara entrar em uma universidade. Para se manter, ele fazia alguns bicos, podendo comprar o cigarro de cada semana e ainda sobravam alguns trocados para viajar com a banda.

Naquela manhã de março, ele se levantou e notou que seu celular vibrava incansavelmente, lembrando-lhe de seu aniversário. Desligando o celular, ele rumou até a janela, que abriu com o costumeiro estrondo. Olhando para a rua, nada mudara: Se aquela manhã piorasse de alguma forma, definitivamente era o fim.

Era uma quarta-feira, o dia de passear com os cães. Ninguém levaria a sério um rapaz que clama ter vivido no inferno e que hoje caminha com os cães pelas longas praias de Melbourne, porém, essa era a terapia maior que Leonard podia trazer para a sua alma. Os cães pareciam saber tanto quanto ele sobre a existência e sobre as vantagens de se manter vivo. Ele aprendera a valorizar as horas que passava falando sozinho, próximo aos cães.

Naquela tarde, ele parara próximo ao Apex Park, debaixo de uma das poucas árvores que ali havia e fez a sua proposta aos cães, como se dirigisse a alguém que lhe desse real atenção:

“Hoje cheguei ao meu limite. Para todos para quem eu posso contar, toda a minha vida parece perfeita, tudo parece tão certo quanto o futuro. Porém, cada dia, cada minuto, me dói tanto, que prefiro deixar para trás tudo que já conquistei a ter que acordar outro dia e encarar essa vida que não é minha.”

Um dos cães, um grande husky siberiano de olhar lupino que parecia odiar cada momento ao sol lhe olhava interrogativo. Ele notara o tom formal de seu discurso de despedida aos cães e sentia que a sua idéia era tola:

“Poxa, desse jeito, vou realmente continuar levando vocês para baixo e para cima! Não é essa minha vida! Nasci para ser muito mais do que sou. Talvez eu não tenha me esforçado muito, mas achei que a vida me devia isso... Estou abaixo até mesmo das expectativas de vocês!”

Pela primeira vez, nem mesmo os cães pareciam lhe entender. Leonard levantou, mirou por um instante a Rua Queen e, como se desse um duro adeus, voltou-se pesaroso para o caminho de volta à sua rua, por onde distribuiria cada um dos cães.

O fato é que a idéia da morte lhe parecia tão estranha quando estava de dia, que ele se sentia outro. Enquanto sua mente estava ocupada, parecia que ele não era capaz de entrar no mesmo ritmo da morte: Não havia clima para pensar no fim de sua existência.
O cair da noite, em seu quarto tremendamente organizado, ele começara a pensar. Seu computador estava ligado, tocando um leve rock australiano que ele realmente odiava ouvir enquanto pensava, mas ele não tinha animo de se levantar.

Em sua cabeça, uma voz dizia claramente: “Então? Como vai ser?”.

E ele sabia à que ela se referia. Era aquela noite e ele não podia falhar. Sua vontade era tanta, que ele sentia seu corpo mole, como se já estivesse morto. Pensava poder ouvir algumas vozes no fundo, com certa expectativa. Ele não tinha pensado em como seria. Ele não queria dar o trabalho de ser encontrado pela empregada que viria em dois dias, mas também não tinha ânimo de sair de casa.

Não queria se matar de uma forma clássica e sim da forma que mais lhe agradava. Ele sentia algo mórbido ao imaginar facas perfurando-lhe o pescoço. Sentia que era uma forma sem volta e que lhe pouparia de vários problemas. Antes mesmo de pensar sobre isso, uma voz grossa dizia com uma clareza assustadora: “Você ainda tem aquele bisturi roubado?”. Ele tinha.

Ele não se lembrava de como o bisturi fora parar em suas mãos. Sentia-se anestesiado com a idéia de seu momento final e gostava do tom solene em que a banda australiana agora cantava o refrão “I'm on the highway to hell”. Ele gostava da idéia, porém, a voz voltara: “Você está esquecendo-se de alguma coisa, não está?”. Estava.

Dias antes, quando passeava com os cães, achara uma faca. Na verdade, era um punhal longo em uma bela bainha de couro e estava cravado na areia, como um presente recém trazido pelas águas do pequeno oceano que os separavam do mundo. Aquela faca não lhe era estranha e por isso, ele guardou cuidadosamente até aquele momento.

Com a faca em mãos, lembrava-se de colocar a bainha na cintura e depois, subitamente, ele desmaiou. Inconsciente como seu próprio desejo de não acordar mais, ele ainda podia sentir tudo enquanto estava preso na escuridão mórbida do vazio. Sentiu seu pescoço todo formigando e por um momento, uma forte dor no peito foi seguida por um sentimento de tontura e atordoamento que se estendeu por horas em sua mente.

Após alguns minutos, ele percebeu que poderia abrir os olhos e assim o fez. Via seu quarto, porém, sobre a cama, estava um enorme volume negro como a noite que se fazia lá fora. Por alguns momentos, ele se sentiu perdido para no outro se sentir totalmente livre, como se acabasse de voltar a ser criança. Ficou no quarto por mais alguns segundos:

“And I'm going down all the way
On the highway to hell”


O pavor corroeu-lhe as veias: Eles viriam pegá-lo a qualquer instante. Tateando a bainha, notou que sua velha companheira estava lá, pronta para espetar mais alguns caras. O rapaz se se encostou à parede e aguardou pelos demônios que o levariam para as profundezas de onde jamais sairia.

A porta do quarto, apesar de fechada, fez um estrondo, movendo sua sombra de forma que, no plano em que Leonard agora se encontrava, ela deixasse passar três vultos humanos, que, com roupas negras de viajem, pararam diante o rapaz, que segurava seu punhal longo ameaçadoramente.

Uma mulher se adiantou, tirando seu capuz e mostrando uma face pálida, porém com um semblante belo como Leonard jamais vira. Com uma voz abafada, a jovem começou a ler um pergaminho que tirara de seu manto:

“Leonard Gondorra, com 22 anos, filho de Kassy Gondorra e de George Lindemburg, você acabou de tirar o bem mais precioso que lhe foi dado em toda a sua existência pela sétima vez durante toda a existência de sua alma. A punição para isso é claramente descansar nas profundezas do lugar maldito em companhia de seus semelhantes até se encontrar pronto e resignado o bastante para retornar a este mundo.”

Durante a breve pausa da jovem, Leonard protestou descontraidamente:

“Sou filho bastardo de um tal George?”

Sua mente ainda estava confusa e ele ainda tentava entender os novos conhecimentos que a liberdade sensorial lhe permitia acessar com seu cérebro etéreo. A jovem executora continuou:

“O julgamento para suicídio é feito por você mesmo e a sentença é igualmente decidida pelo possuidor do poder de apenas tirar a própria vida. Queira, por favor, seguir-me para o salão provisório de julgamento...”


Um homem negro, alto e hostil interrompeu a jovem, falando com uma voz grutual:

“O inferno está em guerra, Malignus. Não podemos esperar pelo seu descanso pré-julgamento. Precisamos de você agora!”

O terceiro vulto mostrou-se um homem de aparência animalesca, com olhos de enormes pupilas, e uma face com semblante lupino e agressivo. Sua voz soou como um rosnado:

“Ou você prefere que usemos o nome de Leonard?!”


E Malignus brotou em Leonard. Tudo agora fazia sentido. A voz que lhe matara, o cachorro com quem falava e até mesmo a garota dona do cão com quem já havia trocado olhares. Ele era necessário no inferno e a única forma de voltar para lá era usar de meios alternativos. Além de livre, ele era agora importante.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Nada Mais.

Aos poucos, tudo que mais prezo se evapora nessa existência. Minha mente, cada vez mais, se vê incapaz de fazer qualquer coisa do que antes fizera com tanto êxito. Não mais me sinto apegado aos meus objetivos e a cada segundo, a cada respirar, eu tenho mais certeza de que já está tudo perdido, como sempre. E como sempre, a culpa é irremediavelmente minha.
Basta notar os vários textos egoístas que tenho publicado que não têm a menor consideração pela racionalidade do leitor, muito menos pelo tempo que, caso algum gaste, ele gasta lendo minhas linhas infrutíferas. Não mais posso dizer que estou feliz com o que faço hoje, além de não ter o mínimo de capacidade que é necessária à execução da mais simples equação.
Penso onde que perdi tudo o que eu tinha conquistado graças ao meu mais árduo esforço. Penso onde errei e se perdi no meu caminho minha vontade de existir. Alias, sinto-me cada vez menos apegado a esta existência.
Todo dia para mim, é apenas outro e não há nada que me faça olhar diferente. Sempre que o pensar me atinge com sua bestial força, me sinto tentado a me levar além de minha maldição. A tentação é tão grande, que às vezes, eu mesmo penso ela ser real.
Não há mais em mim o prazer da descoberta, o prazer do poder tentar, o interesse e o aprofundamento que antes eu tinha pelas coisas. Estou cada dia mais perdido, sem guia em um lugar que definitivamente poderia ser ocupado por um ser mais capaz.
Uma grande pena eu não ligar para o que anda acontecendo. Uma pena que minha consciência se limite a assistir e a lamentar sutilmente de cada ocorrido. Agora, a existência não passa de um filme mal feito, que me leva às ruas fétidas do mundo e a cada rua, encontro mais um cadáver de outra grande oportunidade que eu poderia agarrar.
Foram tantas oportunidades que levei para o meu túmulo, tantas idéias que eu um dia considerei levar adiante em minha vida, que hoje sinto como se eu tivesse passado meus últimos anos como uma criatura vil, um parasita de toda a sociedade, sem produzir nada de útil que fosse e sem adicionar nada à vida de quem quer que eu tenha conhecido.
São tão poucas chances que uma pessoa normal tem de fazer tudo certo, e elas continuam aparecendo para mim abundantemente, e assim, me acomodo. Espero pelo dia em que o desejo da necessidade me leve a agarrar cada oportunidade que deixei passar.
Arrependimento é uma palavra tão vazia para mim que, por mais estranha que a vida que levo comece a parecer, não esboço qualquer sinal de mudança. Talvez faça parte da minha maldição, talvez seja apenas uma de minhas penas: Almejar a condição de mudar que cada ser humano possui.
Quem dera eu, louco e cego como ando, poder olhar para minha vida e dizer: Está tudo errado, ainda tenho tempo de mudar. Por algum motivo, sei que por mais que eu mude, esta será apenas mais uma vida que eu levo. Apenas mais um breve passar sobre a superfície iluminada pela minha Deusa, que hoje mostra o seu prateado para todos que, como eu, voam pelo mundo.
Estou ferido bem profundamente, no mais íntimo do meu ser e sangram-me idéias. Não mais entendo o porquê, mas sei que não conseguirei atingir minha meta. Estou fadado ao fracasso por motivos estranhamente óbvios, escritos na pedra, ou no muro, se preferir. Até que este muro caia, não mais poderei fazer o que mais amo neste mundo, que é tentar consertar algo que jaz, há muito, roto em meu ser.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

terça-feira, 15 de julho de 2008

VITALINO POST MORTEM



Caro leitor,


Se vos escrevo nesta noite fria e de insuportável silêncio, é porque trago minhas mãos sujas de sangue, pelo ato mais vil que um dia cometi. O peso que carrego em minha mente não é o de um assassino, mas o de um suicida em seu post mortem, já que lamento com minha vida à todos os meus atos.
À quem matei, me perguntas, mas não percebes o quão cruel é seu perguntar. Lembrar-me da vítima me trás mais perto dos tempos antigos, onde se tocava alaúde e dançava-se em roda. Não mais sei quem sou, dirá saber minha vítima.
De qualquer forma, esta seria apenas mais uma em um mundo onde a vida humana vale tanto quanto sua miséria. Alias, minha vida mesmo já teve maior valor. Agora, com o peso em sangue com que me sujei, aguardo o julgamento da noite.
Por todas as ruas já caminhei, olhei nas faces de cada pedinte, de cada prostituta que navegam pelo mar nanquin da noite escura. Neles, vi vários suicidas. Muitos perdidos, mas todos, todos eram assassinos como eu.
Todos nós um dia seremos julgados por nosso mal. Não pelo deus à quem clama o louco em vermelho. Não pelo deus que carrega mais sangue pela cruz do que a humanidade toda. Nunca pelo deus, que de tão amoroso, cegou à todos os seus fiéis, que caíram no abismo do mundo plano. E sim por todos os Deuses que nós criarmos. Os Deuses que vêem no passado sua criação pela união da mente humana e que se conservaram vivos durante toda a existência do Todo Universal.
Esses Deuses, eu não temo. Sempre amei à noite. Cada lágrima que um dia o solo reclamou, foram dadas à beleza de Arianhod, que pela primeira vez nomeio nestas cartas. Sua beleza sempre me inspirou a paz e sempre me deu o brilho nos olhos além de me fortalecer ante meus inimigos e os conspiradores de minhas diferenças.
Porém temo pelo mal que fiz. Temo pela vida que tirei. Minha própria vida. O meu próprio assassinato em tal noite escura na qual interveio a Deusa das Sombras. Se matei minha própria existência, se acabei com minhas chances de redenção, então sou um assassino do pior dos tipos.
Sou pior do que os suicidas pois estes sei que já morreram e já foram punidos por sua ação. Sou pior do que o assassino que matou outra vida e que ainda tem a sua para se agarrar. Sou um soldado morto perdido em um exército de vivos, lutando para parecer quem fui. Sou aquele que tirou o próprio direito à viver e que como punição, ganhou a eternidade de uma existência, para olhar para todos à sua volta e dizer "Oh, belos são e tão vivos... Maldito hei de ser aquele que se matou, mas nunca deixou seu corpo para os corvos comerem".
Como todo assassino, esperei pela punição, e somente agora percebi que tudo que tentei entender até agora nunca passou de uma punição. Mas se é a vontade da Deusa de Prata, não faço nada além de aceitar.
Talvez eu ainda possa mudar meu destino. Alterar este plano, moldá-lo nas formas da aceitação de meus defeitos. Moldá-lo de acordo com o que quero e não com o que a sociedade espera de mim. Talvez eu ainda possa voar livre de minhas amarras, ser levado pelos meus sonhos novamente para as ruas e juntar-me aos meus irmãos e irmãs que foram renegados pela vida e pela existência e que apenas conservam parte de sua humanidade.
Ah, caro leitor, não mais lerá uma tão profunda reflexão sobre a minha existência. Não mais verá o bardo tão exposto em suas crenças, já que o desespero desta noite vazia me corroeu e, ao procurar por minha Deusa, encontrei o dia. Agora que sabes o que eu fiz, agora que conhece minhas crenças, agora que entende o eterno peso que carrego, peço que julgue-me no tribunal de sua mente e que me condene à ser amarrado sob o sol, privado de minha Deusa, para que os corvos comam minhas entranhas.


Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

terça-feira, 24 de junho de 2008

O Sábio e O Louco

"A existência fria por fora
feita de carne e sangue
trazendo verdades sujas
à nossas faces assustadas.
Em vão, buscamos o inferno,
nos condenamos por nada
e nos fazemos os tolos de nossos próprios sonhos.

Aos nossos dias
não fazemos jus algum
pois sabemos pra onde vamos.

A cada dia que vivemos,
a certeza de uma punição cresce
e a punição, mal sabemos,
vem de nós mesmos
neste plano passageiro
vago e varrido por nossas forças.

Assim pensamos nós,
aqueles que vêem o mundo
com olhos de serpente
confiando apenas em outros instintos."

-Assim falou o sábio,

"Oh, pobre dos que enxergam,
que vêem a existência com os olhos
de quem não pode ver.

Pobre dos que sofrem em silêncio
as dores do conhecer
e que sabem que em todos os fins
suas respostas serão vãs.

Somos todos construtores
de uma obra que conhecemos
e que sabemos onde acabará.

à cada bloco que erguemos,
vemos de cada vez mais alto
as verdades do mundo.

Dessas verdades, nós sabemos,
existe apenas a dor,
a insanidade,
o suicídio,
o fim.

Mas sabes, oh irmão,
que continuaremos à erguer
e à morrer sobre o peso
do conhecer pestilento
que nos contamina
torna-nos frios,
loucos e
renegados de nossa nação.

O que sabem?
Nos perguntam os hostis.
Sabemos que não sabemos
nada além do que podemos ver.
O porém é o ver profundo
com que apreciamos as coisas.

Os cegos aqui procuram sentidos,
e acham apenas pistas
que levam para outra realidade.

Nós temos nosso próprio mundo,
nosso próprio orbe de conhecimento
e nele sim acharás as respostas
para as perguntas mais difíceis."

-Assim retrucou o louco.

Duas formas de expressar a condenação: Uma é generalizada, exagerada e a outra é poeticamente individualista, ressentida e experiente. Uma voz é respeitada, levada à sério, colocada no topo de nossa hierarquia e a outra é tratada como lixo. Das duas, rejeitamos uma. A do topo ou a de baixo? Tenho minha resposta, desprezo o clero e valorizo as palavras com maior experiência. Minha escolha realmente está feita. Me sinto com sorte por isso, por poder ver dois lados da moeda e escolher o de menor valor.
Aos que lêem, não prestem atenção à este texto. Escrevi enquanto pensava e meus pensamentos são realmente confusos.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

sábado, 21 de junho de 2008

Escolha Certa.

Este conto é apenas mais um dos vários que publiquei. Mas desta vez, ele não faz sentido algum, não possui personagens nem mesmo fatos concretos. Apenas uma hipótese de existência que poderia acontecer com qualquer pessoa. Guarde este personagem. Em breve usarei ele para algo mais concreto.

***

As sombras tomavam o seu quarto, que estava iluminado apenas por uma trêmula vela branca, suja e vacilante. As coisas davam muito erradas para o jovem que, sentado em sua cama desarrumada, revirava uma porção de papeis delicadamente dobrados em seu canto esquerdo.

As coisas saíram do controle quando sua vida pessoal desmoronou de forma rápida e nada saudável, com o fim dos vultos. Ao mesmo tempo, o jovem começou a pensar e a escrever muito. Como um louco em sua jaula, o jovem sonhava e imaginava os acontecimentos, colocando todos precisamente no papel, e jamais lendo o que escrevia.

A tinta passara a ser o seu sangue e os textos, eram cartas de seu corpo para a sua alma. As decepções para o pobre rapaz infelizmente não se encontravam nesse mundo, mas sim, no momento de seu nascimento, quando há muitos anos, ele se separou de uma pessoa em um trem negro de ferro que o levava para outra vida.

Por todos os anos ele sonhara com aquele fato, sem jamais interpretá-lo. Não até aquele dia. O rapaz estava cansado por seus dias improdutivos, pelas faces superficiais que o cercavam e pelo grande fardo que ele trazia de outras passagens.

Foi nesse contexto em que o garoto finalmente viu que perdera naquele trem seu direito à felicidade. Seus dias de existência sempre foram contados desde sua existência. Por mais que ele tentasse aprender a viver a vida mortal que lhe foi dada, sua mente jamais pertencera àquele mundo onde ele se encontrava.

O rapaz olhava todas as noites para a Lua, onde ele via sua deusa e perguntava o que havia de errado com ele. Por muitas vezes, pensara ter sido rejeitado pelo tempo, já que este, sempre que passava, levava um pouco da vida pouca que restara ao jovem.

Naquela noite, o rapaz precisou fazer uma escolha simples. As duas escolhas eram por demais tentadoras para o rapaz, que até então apenas conhecia aos deuses celtas e crenças pagãs. A escolha que ele fez se mostrou dura, tempestuosa como a chuva que acabara com a energia elétrica de sua casa.

Com um papel e um objeto pontiagudo qualquer, ele levou adiante sua decisão e lá escreveu sua última carta e uma tinta que com o tempo escureceu. Sua decisão era sombria e por isso, antes de mantê-la, ele resolveu escrever por uma última vez: Revirou seus papéis buscando uma resposta, porém, tudo o que achou foram cartas de despedida.

Toda a sua vida até ali, ele só adiara a decisão que lhe parecia certa. Despedira-se de quem lhe era caro e por fim, de si mesmo. Sua consciência foi levada a fazer a escolha cegamente, sem jamais analisar todas as conseqüências.

Foi naquele exato momento que a imagem de antes ficou mais nítida: O trem negro e enorme, sacudindo enormemente, enquanto o vento cortava veloz às faces dos que estavam em seu deck superior. Estava lá ele, jovem e amedrontado, abraçado a alguém. Esse alguém foi puxado de seus braços e levado antes do destino final.

A decisão do jovem estava errada. O seu destino não acabava com aquela carta escrita na mais doce tinta. O seu destino acabava no mesmo trem, com a mesma pessoa, no mesmo abraço, com o mesmo medo e a mesma indecisão.

A tinta ainda escorria de sua fonte, porém, agora contra a vontade de seu escritor. Tampo-se a fonte da insana tinta e apagou-se a vela. Abriu=se a janela e agradeceu-se à Dama de Branco, que sempre olhou por aqueles que jamais pertenceram a esse mundo.

Darvius Alexandros III

O Bardo das Trevas


Consciência III

Seria tudo tão mais fácil se analisássemos nossa consciência sem usá-la. Sabemos que existem pessoas dispostas à fazer isso pela gente, mas não confio no resultado deles. Se não ficou claro o que estou pensando aqui, que fique agora: O que separa o meu corpo ligado em uma tomada, executando todas as funções de manutenção de vida, do meu corpo vivo, real, consciente.
Sabemos que existe algo mais e não vou usar nada do que conheço, nada do ocultismo para explicar esse algo mais. Apenas faço uma análise fria. Meu objetivo é abrir a caixa de pandora e estudá-la.
Já definimos a consciência como o filosofar, o mais subjetivo querer e a mais profunda ação de nossos sentimentos. Se tenho eu um humanóide que possa ouvir, falar e aprender, as ações dele é que definirão o seu nível de consciência?
Não parece justo com o nosso amigo andróide julgá-lo pelas ações deles. Seria quase o mesmo que julgar à um humano pelas ações dele. O robô poderia estar programado para fazer tarefas padronizadas, o que na minha opinião não é uma inteligência. É algo convenientemente inteligente. Pensando mais agora, o erro talvez esteja na nossa lógica. A lógica dos 0 e 1, do verdadeiro ou falso, do bem e do mal não regem o universo, não há céu nem inferno, não há pessoas 100% boas ou ruins. Sendo isso fato, ao dizer que uma máquina seria incapaz de pensar por ter uma lógica binária, desafiamos nossa própria lógica: Porque a lógica da máquina TEM que ser binária? É obvio que uma máquina não mentirá se ela pensar em 0 e 1. Ela não desobedecerá as três leis se a lógica dele for binária. Tudo perfeito, exceto a consciência, o ego, a essência humana. Talvez essa seja a chave para a caixa de pandora. A essência humana só é limitada por encontrar uma lógica binária. Talvez seja isso, preciso pensar mais.
Da essência humana, temos aquilo que levaria um robô a tirar sua própria vida, que levaria ele à matar o seu próximo e se banhar em seu sangue e que levaria ele à amar incondicionalmente. Isso, meu caro, não é binário. Nem todo suicida é mal, nem todo assassino é inconseqüente e nem todo amor é cego.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Consciência II

Como humanos, todos os nossos modelos de prova e de padronização são baseados em nossa matemática. Porém, sabemos que a consciência é algo totalmente imprevisível. Talvez as diferentes formas com que a consciência se manifeste cegue à todas as tentativas de analisar sistematicamente suas origens ou até mesmo o que a define. Tendo isso em mente, sempre se busca um padrão estatístico no comportamento geral, o que sempre distorce os dados e/ou não é viável ser aplicado em um número tão grande de variáveis.
A análise principal da consciência, ou pelo menos de nossa tomada de ações é facilmente feita quanto analisa as ocorrências experimentacinais, ou seja, que ocorrem devido à alguma esperiência ou pelo estímulo de algum de nossos sensores. Essa parte de nossas ações já foi sintetizada por experiências anteriores.
Porém, a consciência no plano das idéias, do sentir e do querer são a chave. O que separa um robô que sente e tem necessidades (querer) de um humano? Uns dizem que é a capacidade de criar ou a capacidade de se adaptar à situações. Eu discordo plenamente. Nada impede um robô de criar algo ou de se adaptar. Existem inúmeros algoritmos específicos para isso que, se fossem colocados juntos, seriam passíveis de tornar o robô tão eficiente na criação quanto nós. Já me disseram que um robô não pode criar música como nós. Apesar de complexo, basta entender que sempre tocamos o que mais agrada o nosso ouvido. Esse "agradar" nada mais é do que uma seqüência matemática de sons que combinam melhor não só entre si, mas que combinam também com o ambiente e o contexto: Nossos sensores de som interpretam as freqüência e o cérebro dita, de acordo com nossas emoções, se a música é agradável ou não. Extremamente complexo, porém, não é impossível.
O entender seria algo questionável. Porem, para entendermos uma frase ou interpretarmos um texto, o que fazemos e pegar cada palavra e jogar para um plano mais abstrato do que ela realmente quer ser. Para palavras muito específicas, ao interpretar fatos que envolvem essas palavras, não só usamos a tradução da palavra como também todo o conhecimento que temos sobre ela, comparando e verificando em qual parte desse conhecimento se encaixa a idéia que nos é passada em uma frase. Muito complexo, porém, não é impossível.
A verdadeira questão é: Por que EU escrevo um texto desses sem nenhuma necessidade, se não expressar minhas idéias para quem um dia ler esse blog, e uma máquina capaz de fazer tudo que eu descrevi anteriormente não?
Máquinas são motivadas pela lógica, sim, eu sei. Porém, deve existir um ponto que leve-as a ser completamente auto-suficiente. Esse ponto tornará elas em seres sapientes. Seres consciêntes. Se eu entender à esse ponto, eu terei conhecimento sobre o que é consciência. Ambicioso, eu sei, porém, não é a coisa mais complexa que já tentei entender. Deixe com o Bardo, ele sempre acha um caminho, mesmo sua razão estando cega pela luz da existência.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Consciência I

Houve um tempo em que soubemos do que se tratava a vida. A vida, já foi "aquilo que é constituído de material vital" e ironicamente, achamos uma excessão. O caso é que nossa jornada sempre apontou para o lado errado. Não é necessário definir o que é vida, já que vivo é tudo aquilo que não está morto.
A verdadeira jornada ruma à uma caixa de pandora que nos foi dada há muitos milênios atrás: A consciência. O que faz nossa vida valer acima da de todos os outros seres de nossos sistema solar é justamente a nossa consciência. Pandora nos deu aquela caixa por apenas um motivo: Nós temos o dever de passar um dia essa caixa para frente e sofrer a mesma conseqüência que um dia Pandora sofreu.
Definir o que é consciência está tão além do nosso pensamento que coloca em xeque até mesmo o nosso livre-arbítrio, que se vê proibitivo nessa questão. "Cogito, ergo sum" já fora uma resposta plausível, porém, não seria o pensar independente uma conseqüência de nossa consciência?
Temos a idéia de consciência tão profundamente inscrita em nossas almas, que valorisamos as pessoas de acordo com o nível de consciência que elas aparentam ter, sendo assim, fácil manipular aos sentidos.
Pensar sobre o pensamento, o meta-pensamento, é difícil pois não há o que se observar, ou melhor: O que observamos está em uso para nós mesmos.
Imaginemos o ser humano em seu mais inicial estágio de consciência: De onde ela veio? Teria o nosso DNA a capacidade de nos trazer lembranças de outras vidas (de nossos antepassados) o bastante para nos dar uma pequena idéia de mundo?
O que é a nossa vontade? A nossa ânsia pelo saber, pelo fazer e pelo querer? O que é o vazio que sentimos e que nos fáz parar, pensar e ter as idéias mais fundamentais da consciência humana filosofadas em nosso consciênte?
Talvez seja apenas isso que nos separe de uma máquina. Talvez, o fato de criaturas consciêntes estarem por trás de modelos matemáticos que simulem um comportamento baseado no querer, no poder e não na aleatoriedade das ações seja um trabalho impossível de nós, humanos, fazermos.
Porém, acredito que talvez o nosso querer, saber e poder seja tão simples quanto jamais pensamos e por isso, não conseguimos enxergar. A nossa caixa de pandora está vazia. As punições pela nossa insolência toma os céus e nós ainda não criamos nada, não demos origem aos ciclos.
Voltarei à comentar sobre a consciência, que é atualmente a única coisa que tem tomado meus pensamentos.

Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas

domingo, 15 de junho de 2008

15 Minutos.

No universo, tudo pulsa, tudo possui sua frequência de vibração, tudo em função do tempo. Assim disseram os sábios. Os mesmos sábios certa vez, ao se deparar com a morte, viram o tempo mudar de forma extraordinária. Para quem ainda viverá cem anos, um dia é apenas um ínfimo do seu viver. Mas aquele que viverá por quinze minutos, cada segundo é de preciosidade extrema. É o segundo que faz decidir muitas das vezes em que a pessoa deixa de morrer. Nesses segundos é que o suicida pensa, pela última vez, em não puxar o gatilho. Nesse segundo, o salvador percebe o valor de sua vida e nesse mesmo segundo, a vítima toma consciência de seu assassino.
São apenas segundos que você, leitor, pode jogar fora, alias, o faz. São segundos que passam despercebidos por você, que ao ler essas linhas, dispôs de vários de seus segundos. Porém sei eu que o leitor não é um suicida, não é um salvador, muito menos uma vítima. Mas quem sabe o que Nimb nos reservou para o amanhã? Não se preocupe, os 15 minutos de consciência são seus e nada nem ninguém pode negá-los.
Esse mesmo tempo é o que acabamos por distorcer em função de adquirirmos novos tons de vibração. Nesses segundos, nos elevamos ao nosso plano do pensamento, só para escapar dessa realidade insana. Ai dos que nos culpam. Vivo aqui por opção minhas (assim espero), porém, daqui posso sair quando eu quiser.
O leitor, que agora se perdeu em minhas palavras, apenas procura a relação entre o tempo, a vibração e os suicidas, pois então eu falo-te a relação:
O tempo nos limita.
O suicida sofre tanto, que a vida não lhe é mais bem vinda.
A vibração define o nosso plano.
Viu a relação? Não? Realmente, ela não existe. Apenas estava com vontade de me lembrar do ir e vir (vibração) dos suicidas e do tempo de consciência (fantástico) que eles têm antes da morte.
Acontece. A culpa não é minha, caro leitor: É sua por você não estar me acompanhando deste lado da linha da loucura.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O Louco e o Cego

As ondas lavavam duramente aquele estaleiro, durante uma das tempestades que mais apavoraram os homens de Lashinir. A noite uivava com seus ventos, e rugia com seus trovões, arrastando barcos e o medo com sua força jamais pensada. Era um dia fúnebre para as esposas cujos maridos estavam ao mar, um dia alegre para os que não foram trabalhar e um dia apocalíptico para os que ainda tinham esperança.

Porém, não longe da revolta praia, uma longa casa de madeira permanecia quente e agitada: Era a taberna "Bons Tempos". Havia ali uma competição entre bardos vindo de todo o reino. Porém muitos ficaram preso ou, quando não, morreram na travessia do oceano bravio.
Apenas dois bardos estavam lado-à-lado: Um era cego, usava uma faixa negra em seus olhos, trajando cores verdes leves, com uma espada decorada em sua bainha e o outro, era louco. O louco carregava uma pesada roupa de viagem, toda em tons azulados, inclusive sua manta de couro. Em seu cinto, um punhal longo adornado podia ser facilmente visto.

Com um acenar de cabeça, o bardo cego olhou para o louco e após poucos segundos de sintonização, os dois elfos começaram a tocar: O cego solava em sua flauta longa de marfim precioso enquanto o louco entoava acordes leves e suaves em seu alaúde de madeira lustrosa marrom, porém desgastado em suas pontas.

Juntos, os sons criaram a harmonia tão perfeita já vista pelo homem que, em conjunto com os tropetes e tambores que a tempestade rufava deram espaço à sensação de paz jamais experimentada por qualquer mortal. O vento em seu cruel assovio fazia coro com os sopros da flauta e o alaúde em seu toque veloz, era acompanhado pelo baixo dos clarões de fogo. Tal som se propagou pela taverna, arrancando as almas de quem ali estava, limpando-nas e retornando-nas aos corpos antigos. De todos partiram choros, risos e emoções já guardadas desde a criação. Os Deuses por um momento viram o presente, o passado e o futuro de sua criação diante do esplendor da melodia.

Os bardos sorriam, sabiam e viam o que estava à acontecer. Eles eram agora, os guardiões da música das tempestades, os únicos capazes de um dia dizer o que ali acontecera. Com o entoar dos tempos musicais, o bardo louco começou seu canto, vindo das terras mais antigas do norte, com uma vós tão melódica que podia atingir qualquer tom:

Um dia ousamos sonhar
com o tudo, o todo, à ver
a nossa existência passar
e eternos, não vamos morrer.

Por tempos pensamos sentir
o que um dia já nos fez sorrir
mas que hoje é apenas passado
tempos que foram cantados.

Levados pelo acreditar (tão longe)
quanto pudemos com a mente alcançar
vivemos a vida eterna
cantando amores à terra.

Os elfos que já navegaram
levaram o tempo também,
trouxeram os que esperavam
para cá, terras do além.

As terras onde tudo morre
e o povo que não vive em paz
invejamos seu tempo que corre
almejamos vidas mortais.

Quem dera poder nascer e morrer
sem por toda a dor passar!
Poder um dia deitar (em paz)
o descanso que quisemos ter.

Oh, vida, levastes meus olhos
e deixastes minha mente para trás!
Vivemos, os loucos e os cegos
para sempre, como a vida faz.

Com a música tão fantástica, os elfos, imortais por natureza, morrendo apenas de tristeza, deram conclusão ao fantástico espetáculo, que para muitos, seria um sonho ou uma experiência inconcebível. Os aplausos e gritos vieram de todas as partes, o ouro choveu aos pés dos dois bardos, que sorriam simpáticos. A tempestade se dissipava. Foram quatro longos dias de espetáculos, pelo tempo que a tempestade durou. Foram quatro dias que se fizeram tão curtos e tão fantásticos, que o tempo fez a gentileza de ceder espaço para que a melodia continuasse. Todos, agradecidos, se jogavam aos pés dos bardos, que deixavam o local sem levar uma moeda de ouro. "Mentira!" Dirá o leitor e eu, apenas posso dizer que quem vos conta a história possui, até hoje, o punhal longo adornado e as rotas vestes azuis.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco