Nunca pude imaginar que o número 23 me deixasse tão amargo...
Agora eu escrevo este texto para deixar para a posteridade a forma com que vim parar aqui e também para informar aos que lêem que o mundo não se limita às Wastelands e que, há muito tempo, existia outro continente, conhecido como Europa.
Eu, naquele ano de 2077, era Comandante de aeronaves comerciais de uma empresa chamada American United. Aeronaves eram, na melhor descrição que já conheci, como ônibus, porém elas voavam alto, além das nuvens e podiam levar centenas de pessoas, passageiros do ônibus chamado de avião.
Na manhã do dia 23 de Outubro do ano de 2077, também conhecido como o dia da Grande Guerra, caía em Berlim uma tempestade enorme: às 6:00 da manhã, o dia parecia noite. O motor do Chrysalis americano rugia, e passávamos eu e o motorista da empresa como um raio pelas largas Highways alemãs. Os Chrysalis usavam como combustível as células de micro fusão que hoje são usadas apenas em armas.
Cheguei ao aeroporto internacional de Berlin bem a tempo de começar os procedimentos de vôo. Aos poucos, a chuva cedeu lugar a uma manhã clara e gélida. A aeronave, após as manobras computadorizadas de taxi, encarregadas de retirar a aeronave de seu “estacionamento” e levá-la até o local onde os passageiros embarcavam, já estava à minha espera.
Passando pelo finger, túneis que levavam os passageiros até a aeronave, observei com um brilho nos olhos aquele belo pássaro azul marinho, com elegantes listras vermelhas. O Boeing 727-900ER era a aeronave mais nova da empresa. Desde que o petróleo se tornara caro demais para ser gasto com o transporte, os jatos passaram a ser reciclados e este 727 em especial, havia sido construído há quase 100 anos antes daquele dia.Entre as modificações estavam os poderosos reatores de fusão que movimentavam as três turbinas do elegante jato. A fuselagem era mais longa, permitindo que 230 passageiros se acomodassem em três classes diferentes. Éramos o topo da aviação mundial e nosso vôo, um dos quatro únicos que ligavam a América à Europa naqueles tempos de crise, sempre estava lotado.
Já na cabine, encontrei a Primeira Oficial, que me ajudava a pilotar o avião, e o Engenheiro de Vôo, assistente muito útil em viagens longas, fitando os monitores de fósforo, que mostravam o status da aeronave em textos e diagramas que apareciam em verde na tela escura e imprópria. A falta do petróleo levou a humanidade há um retorno aos primórdios da tecnologia, mas ainda assim, voar era seguro.
Após os cumprimentos, começamos os procedimentos de segurança rotineiros: Checamos os instrumentos eletrônicos e os analógicos, todos funcionavam. Os atendentes de bordo se posicionavam em seus assentos logo após os passageiros entrarem, enquanto dois robôs, conhecidos como Air-Handy, uma variante aérea dos Mr. Handy, apresentavam os passageiros aos seus lugares e faziam o speech sobre os procedimentos de segurança.
A realidade é que se um avião daqueles tocasse o solo sem o devido cuidado, o efeito seria bem próximo ao de uma explosão termo-nuclear, porém, acredito que dizer isso aos passageiros não seria nada elegante.
Após 15 minutos, nos posicionávamos na cabeceira da pista 07L do novíssimo aeroporto de Brandenburg. Fizemos a última checagem quando tive a confirmação da torre de controle. O prazer de mover o manche para frente e sentir os dois Pratt & Whitney JT8-NF rugirem como se fossem voar e deixar a fuselagem para trás. Em minutos, saíamos de Berlim, rumo a uma viagem sem paradas até Washington D.C., a capital do até então Estados Unidos da América.O mundo acabou quando estávamos deixando o continente. Eu acabava de perder as praias de vista quando uma tremenda turbulência arrancou o manche de minha mão, me jogando de encontro com o painel. No fundo da aeronave, ouvi gritos, e diversos alarmes soaram. Automaticamente, o aviso de turbulência se acendeu na cabine, porém, diversos passageiros já apresentavam ferimentos graves. Os robôs tentavam em vão acalmar os passageiros enquanto nós, da cabine, tentávamos controlar o avião, que guinava violentamente para a esquerda.
Nosso leme havia travado em sua posição na hora da turbulência e isso estava desestabilizando seriamente a aeronave. Nosso engenheiro de vôo acionava as medidas que reiniciavam às posições das superfícies da aeronave, o que certamente resolveria o problema. A primeira-oficial tentava contato com a torre de Lisboa para o retorno urgente da aeronave e eu permaneci estático: Aquilo não havia sido turbulência.
O rádio permanecerá mudo nas freqüências das torres. O canal do tráfego aéreo ficará caótico e cacofônico, cheio de estática, algo de muito horrível havia acontecido. Tomei a ríspida decisão de não voltar a aeronave para Berlim. Éramos treinados para retornar aos EUA em caso de ataque nuclear e assim eu procederia.
Ninguém na cabine entendia a minha conclusão, tive que explicar cuidadosamente para eles: Todas as torres locais haviam parado de responder e o tráfego aéreo estava caótico. Mesmo que se tratasse somente de mais um bombardeio em Lisboa, eu não voltaria o avião para um campo de guerra.
Todos concordaram e eu comecei o célebre speech, meu ápice como comandante, aos passageiros do vôo que ainda tinham condições de me ouvir:
“Senhores passageiros, aqui quem fala é o Capitão Brenning. Fomos atingidos por uma onda de choque, resultado provável de uma explosão, e perdemos o contato com as torres portuguesas. Por ordem do Sr. Presidente no estatuto desta companhia, em casos de situações extremas militares, este avião só deverá pousar em solo americano. O avião não foi severamente avariado e, sendo assim, a próxima parada é Washington D.C.. Que Deus tenha piedade de nossas almas.”
O caos continuou por mais cerca de duas horas. O avião estava estável, havíamos perdido alguns sistemas secundários e já tínhamos contabilizadas sete mortes devido ao choque que sofremos. No horizonte, nada além de algumas nuvens. No rádio, recebemos a mensagem automática de emergência da costa portuguesa e já tínhamos certeza de que Portugal havia sido varrido do mapa por armas nucleares. O código laranja dizia que nem mesmo o presidente havia sobrevivido.
Cerca de meia hora após a trágica descoberta, avistamos uma enorme aeronave azul e vermelha igual à nossa, porém, sendo perseguida por uma fumaça negra e fatal. Conseguimos contato no canal da American United e com a proximidade, descobrimos que aquele pássaro ferido
mortalmente era um Boeing 747-8, o único da companhia. Seus dois andares estavam com a fuselagem enegrecida, suas asas haviam se decomposto em suas bordas, formando assustadoras estruturas negras e, de suas turbinas sem a fuselagem protetora, víamos a fumaça negra, que para uma aeronave, era semelhante a um grave sangramento.O contato foi breve, o comandante deles gritava:
“Mayday, mayday, mayday, AU747 para tráfego, mayday, mayday, mayday…”
Respondi calmamente:
“AU747, aqui é o AU273, qual é a natureza emergência?”
E a resposta voltou:
“AU273, é ótimo ouvir sua voz! Fomos atingidos, a América foi atingida por bombas de hidrogênio, decolamos do JFK no momento da explosão, várias janelas explodiram, sofremos descompressão, motor 1 e 3 pararam de funcionar e estamos perdendo óleo para o motor 2. Perdemos o controle hidráulico do leme e... A coisa está bem feia, vários feridos, vários mortos...”
Pensei por um momento:
“AU747, quantas almas a bordo? Consegue fazer até Berlin ou Londres?”
“AU273, temos 413 almas a bordo e... Não. Acho que não vamos chegar tão longe. Lisboa... Talvez Madri...”
“AU747, fomos atingidos por uma onda de impacto, acredito que Lisboa não seja uma opção...”
Com um grito sem emoção alguma, o comandante disse:
“Não posso amerissar esse avião!”
E eu instruí, no momento em que o avião tomava a direção de Londres:
“Alije os reatores e use a energia auxiliar para pousar o avião a uns 160 nós na água, acho que pode ser sua única chance!”
O avião começara a inclinar: O motor dois estava morto e o desespero tomara conta da outra cabine:
“Meu Deus! Meu Deus! Perdemos o motor dois! Alijar os reatores imediatamente, começar os procedimentos de segurança!”
Neste momento, uma violenta explosão arranca a asa esquerda do enorme Boeing 747, abrindo um monumental rombo em sua já danificada fuselagem. A aeronave se desfazia em pleno vôo. Emborcado, o pássaro que fora fabricado no ano de 2015, aos poucos rumava para o seu leito de morte no fundo do Atlântico:
“Mayday, mayday, mayday!”
A aeronave se chocou na água, a frase acima foi repetida 3 vezes antes do enorme jumbo se desintegrar junto com seus 413 passageiros e tripulantes no meio do oceano Atlântico. O choque provavelmente fora indolor para seus passageiros, porém a expressão minha e de meus amigos, era da mais profunda tristeza: A América perdia quatro centenas de seus raros sobreviventes.
O restante da viagem se seguiu no mais profundo silêncio. Um par de alarmes soava baixo. Os passageiros haviam se calado, alguns choravam baixo, outros olhavam pelas janelas para o vasto oceano.
Pensamos em mudar a rota para o Brasil, sabíamos que lá existia um par de aeroportos desativados que poderiam nos receber, porém no fundo, sabíamos que o mundo havia acabado.
Captamos no radar apenas mais um par de sinais, que pela velocidade em que voavam, pareciam ICBMs que viajavam até seus destinos finais. O silêncio durou até vermos a costa americana.

Nos céus, vários cogumelos negros. Washington não passava de fumaça. Com o nosso aproximar, não conseguíamos contato com nenhuma torre, porém, captamos o sinal ILS da torre de Washington. Rezamos para que nosso avião pudesse aterrissar no aeroporto mesmo com os tais cogumelos.
Sobrevoamos a cidade e apenas vimos o Monumento de Washington inteiro. A fumaça e o caos era assustador. Aproximamos-nos do aeroporto e uma dezena de alarmes soou: Radiação em altos níveis. Enquanto orbitávamos, fiz o speech final:
“Senhores passageiros, temos uma situação de emergência, pedimos que todos peguem as máscaras de oxigênio que caíram e retirem-nas do suporte, de forma a levá-las para onde forem. Sairemos do avião ordenadamente e seguiremos para o abrigo da Segurança Nacional do aeroporto. Peço que se mantenham juntos e rezem para que os abrigos ainda estejam abertos.”
Já vendo a pista, agradeci a qualquer que fosse a força maior da época pela pista estar livre de destroços, apesar da torre de controle e de parte do terminal estarem em chamas. O avião pousou sem problemas, aguardamos cerca de dois minutos para abrir as portas.
A partir daqui, a história é horrível. Fazem 200 anos exatos que tudo aconteceu, mas a dor é a mesma. Das pessoas que estavam na rua, no momento da explosão, restaram apenas suas imagens impressas em negro nas paredes que ainda se mantinham erguidas. Quando não, víamos corpos em estados indescritíveis.
A radiação era extrema, seguimos para os abrigos apenas para ver uma centena de corpos em chamas, pessoas que tentaram entrar após o fechamento das portas.
Fugimos para o metrô, acampamos próximo a um beco que havia desabado, nos dando certa proteção contra os saqueadores. A morte por radiação fez metade da tripulação sucumbir rapidamente. Crianças e velhos primeiro, depois as mulheres em sua maioria.
O excesso da radiação deixava os mortos tão horrendos, que os moribundos ficavam em uma sala fechada. Toda noite, eu e mais dois camaradas entrávamos e retirávamos os corpos em segredo, jogando em uma vala profunda.
Com o passar do tempo, me transformei no que hoje sou. Um ghoul. Minha pele rachou, perdeu o brilho e passou a cair. Meus companheiros morreram todos em no máximo cinco anos após a queda das bombas e eu continuei.
Continuei por 237 anos a ver o mundo mudar. Hoje, evoluímos muito: Já estamos próximos ao que fomos um dia, no período neolítico.