quarta-feira, 11 de junho de 2008

O Louco e o Cego

As ondas lavavam duramente aquele estaleiro, durante uma das tempestades que mais apavoraram os homens de Lashinir. A noite uivava com seus ventos, e rugia com seus trovões, arrastando barcos e o medo com sua força jamais pensada. Era um dia fúnebre para as esposas cujos maridos estavam ao mar, um dia alegre para os que não foram trabalhar e um dia apocalíptico para os que ainda tinham esperança.

Porém, não longe da revolta praia, uma longa casa de madeira permanecia quente e agitada: Era a taberna "Bons Tempos". Havia ali uma competição entre bardos vindo de todo o reino. Porém muitos ficaram preso ou, quando não, morreram na travessia do oceano bravio.
Apenas dois bardos estavam lado-à-lado: Um era cego, usava uma faixa negra em seus olhos, trajando cores verdes leves, com uma espada decorada em sua bainha e o outro, era louco. O louco carregava uma pesada roupa de viagem, toda em tons azulados, inclusive sua manta de couro. Em seu cinto, um punhal longo adornado podia ser facilmente visto.

Com um acenar de cabeça, o bardo cego olhou para o louco e após poucos segundos de sintonização, os dois elfos começaram a tocar: O cego solava em sua flauta longa de marfim precioso enquanto o louco entoava acordes leves e suaves em seu alaúde de madeira lustrosa marrom, porém desgastado em suas pontas.

Juntos, os sons criaram a harmonia tão perfeita já vista pelo homem que, em conjunto com os tropetes e tambores que a tempestade rufava deram espaço à sensação de paz jamais experimentada por qualquer mortal. O vento em seu cruel assovio fazia coro com os sopros da flauta e o alaúde em seu toque veloz, era acompanhado pelo baixo dos clarões de fogo. Tal som se propagou pela taverna, arrancando as almas de quem ali estava, limpando-nas e retornando-nas aos corpos antigos. De todos partiram choros, risos e emoções já guardadas desde a criação. Os Deuses por um momento viram o presente, o passado e o futuro de sua criação diante do esplendor da melodia.

Os bardos sorriam, sabiam e viam o que estava à acontecer. Eles eram agora, os guardiões da música das tempestades, os únicos capazes de um dia dizer o que ali acontecera. Com o entoar dos tempos musicais, o bardo louco começou seu canto, vindo das terras mais antigas do norte, com uma vós tão melódica que podia atingir qualquer tom:

Um dia ousamos sonhar
com o tudo, o todo, à ver
a nossa existência passar
e eternos, não vamos morrer.

Por tempos pensamos sentir
o que um dia já nos fez sorrir
mas que hoje é apenas passado
tempos que foram cantados.

Levados pelo acreditar (tão longe)
quanto pudemos com a mente alcançar
vivemos a vida eterna
cantando amores à terra.

Os elfos que já navegaram
levaram o tempo também,
trouxeram os que esperavam
para cá, terras do além.

As terras onde tudo morre
e o povo que não vive em paz
invejamos seu tempo que corre
almejamos vidas mortais.

Quem dera poder nascer e morrer
sem por toda a dor passar!
Poder um dia deitar (em paz)
o descanso que quisemos ter.

Oh, vida, levastes meus olhos
e deixastes minha mente para trás!
Vivemos, os loucos e os cegos
para sempre, como a vida faz.

Com a música tão fantástica, os elfos, imortais por natureza, morrendo apenas de tristeza, deram conclusão ao fantástico espetáculo, que para muitos, seria um sonho ou uma experiência inconcebível. Os aplausos e gritos vieram de todas as partes, o ouro choveu aos pés dos dois bardos, que sorriam simpáticos. A tempestade se dissipava. Foram quatro longos dias de espetáculos, pelo tempo que a tempestade durou. Foram quatro dias que se fizeram tão curtos e tão fantásticos, que o tempo fez a gentileza de ceder espaço para que a melodia continuasse. Todos, agradecidos, se jogavam aos pés dos bardos, que deixavam o local sem levar uma moeda de ouro. "Mentira!" Dirá o leitor e eu, apenas posso dizer que quem vos conta a história possui, até hoje, o punhal longo adornado e as rotas vestes azuis.

Darvius Alexandros III
O Bardo Louco