sábado, 21 de junho de 2008

Escolha Certa.

Este conto é apenas mais um dos vários que publiquei. Mas desta vez, ele não faz sentido algum, não possui personagens nem mesmo fatos concretos. Apenas uma hipótese de existência que poderia acontecer com qualquer pessoa. Guarde este personagem. Em breve usarei ele para algo mais concreto.

***

As sombras tomavam o seu quarto, que estava iluminado apenas por uma trêmula vela branca, suja e vacilante. As coisas davam muito erradas para o jovem que, sentado em sua cama desarrumada, revirava uma porção de papeis delicadamente dobrados em seu canto esquerdo.

As coisas saíram do controle quando sua vida pessoal desmoronou de forma rápida e nada saudável, com o fim dos vultos. Ao mesmo tempo, o jovem começou a pensar e a escrever muito. Como um louco em sua jaula, o jovem sonhava e imaginava os acontecimentos, colocando todos precisamente no papel, e jamais lendo o que escrevia.

A tinta passara a ser o seu sangue e os textos, eram cartas de seu corpo para a sua alma. As decepções para o pobre rapaz infelizmente não se encontravam nesse mundo, mas sim, no momento de seu nascimento, quando há muitos anos, ele se separou de uma pessoa em um trem negro de ferro que o levava para outra vida.

Por todos os anos ele sonhara com aquele fato, sem jamais interpretá-lo. Não até aquele dia. O rapaz estava cansado por seus dias improdutivos, pelas faces superficiais que o cercavam e pelo grande fardo que ele trazia de outras passagens.

Foi nesse contexto em que o garoto finalmente viu que perdera naquele trem seu direito à felicidade. Seus dias de existência sempre foram contados desde sua existência. Por mais que ele tentasse aprender a viver a vida mortal que lhe foi dada, sua mente jamais pertencera àquele mundo onde ele se encontrava.

O rapaz olhava todas as noites para a Lua, onde ele via sua deusa e perguntava o que havia de errado com ele. Por muitas vezes, pensara ter sido rejeitado pelo tempo, já que este, sempre que passava, levava um pouco da vida pouca que restara ao jovem.

Naquela noite, o rapaz precisou fazer uma escolha simples. As duas escolhas eram por demais tentadoras para o rapaz, que até então apenas conhecia aos deuses celtas e crenças pagãs. A escolha que ele fez se mostrou dura, tempestuosa como a chuva que acabara com a energia elétrica de sua casa.

Com um papel e um objeto pontiagudo qualquer, ele levou adiante sua decisão e lá escreveu sua última carta e uma tinta que com o tempo escureceu. Sua decisão era sombria e por isso, antes de mantê-la, ele resolveu escrever por uma última vez: Revirou seus papéis buscando uma resposta, porém, tudo o que achou foram cartas de despedida.

Toda a sua vida até ali, ele só adiara a decisão que lhe parecia certa. Despedira-se de quem lhe era caro e por fim, de si mesmo. Sua consciência foi levada a fazer a escolha cegamente, sem jamais analisar todas as conseqüências.

Foi naquele exato momento que a imagem de antes ficou mais nítida: O trem negro e enorme, sacudindo enormemente, enquanto o vento cortava veloz às faces dos que estavam em seu deck superior. Estava lá ele, jovem e amedrontado, abraçado a alguém. Esse alguém foi puxado de seus braços e levado antes do destino final.

A decisão do jovem estava errada. O seu destino não acabava com aquela carta escrita na mais doce tinta. O seu destino acabava no mesmo trem, com a mesma pessoa, no mesmo abraço, com o mesmo medo e a mesma indecisão.

A tinta ainda escorria de sua fonte, porém, agora contra a vontade de seu escritor. Tampo-se a fonte da insana tinta e apagou-se a vela. Abriu=se a janela e agradeceu-se à Dama de Branco, que sempre olhou por aqueles que jamais pertenceram a esse mundo.

Darvius Alexandros III

O Bardo das Trevas