Certa vez tocava eu em um pequeno pub de Valkária, apenas aguardando o chamado da Dama de Branco, por quem eu ainda tinha forças para dar a vida, quando aconteceu essa rápida e profunda cena a qual descreverei, perdoe-me o leitor, na mais pura fidelidade dos fatos. A grande verdade é que andei muito por esse mundo, estou velho e ando me impressionando com fatos cada vez menores.
A noite desceu com o frio noturno que sempre cobria as areias próximas á cidade de Valkária, capital dos homens. Valkária era tão grande e bela, que nem mesmo os mais longínquos reinos cogitavam o mundo sem os portões enormes da mais pura madeira branca das proximidades de Nilo. A cidade imperial brilhava sempre, toda branca como no mais puro sonho de Lenna, a Deusa da Vida, ou na mais clara visão do deus Tillian, o Louco.
Sua importância estava em seu povo: As mais diversificadas nações marcaram sua presença na grande diversidade Valkariana, onde por mais truculentos que fossem seus habitantes, esses ainda tinham seu lugar na concorrida e abafada sociedade da cidade.
A aristocracia era conservadora ao máximo, protegia os princípios da boa moral e dos bons modos, porém, a realidade é que Valkaria era uma cidade que já não contava com o potencial econômico de outrora. Talvez o único luxo ainda existente dos bons tempos era a arena imperial que, infelizmente, deixava muito à desejar para a alta sociedade.
Assim, diversas tavernas abriram-se para abrigar um público relativamente abastado e ocioso, de forma que pudessem debater, expor suas idéias para visitantes, conseguir aventuras e vender seus dons para terceiros.
É exatamente em uma dessas tavernas que o velho bardo que lhes palestra cantava naquela noite fria, porém bela e que de alguma forma, era muito receptiva à canção:
"She is gone leaves are falling down
The tear maiden will not return
The seal of oblivion is broken
And a pure love's been turned into sin..."
O público assistia, hipnotizados com a letra bela que talvez falasse da filha desaparecida do Rei da cidade imperial. A música já vinha de eras atrás, cantadas por um grupo de bardos que têm seus nomes gravados nas pedras até hoje:
"Harvest of sorrow, your seed is grown
In a frozen world full of cries
When the ray of light shrinks
Shall cold winter nights begin!"
O público aplaudiu delicadamente a música: Eram quinze pessoas além do bardo e dos dois homens troncudos que faziam os trabalhos da taverna. Todos ouviram atenciosamente a música e cantaram trechos conhecidos da melodia e, à medida em que o bardo abaixava seu alaúde gasto e coberto de arranhões profundos, alguns curiosos se aproximavam fazendo sugestões.
O bardo já estava cansado, tocava apenas por prazer. Pegou uma bebida quente no balcão e sentou-se em sua mesa sozinho, analisando um mapa de diagramas planais, coisas que poucos além dos iniciados nas artes Dela poderiam entender.
Com uma pancada na mesa, um anão na mesa ao lado chamou, sem querer, a atenção do bardo para o assunto que aquele grupo pouco comum conversava: Um elfo, um anão e um humano na mesma mesa, onde o humano, com seus cabelos compridos amrradaos longamente às suas constas, apenas olhava para o tampo da mesa, pensativo. O elfo, conversava em tom febril, com uma mão sobre a mesa e outra em sua adaga, sempre alerta como todo ser imortal que aprendeu com o tempo as armadilhas da vida. Já o anão, estava quase de pé, com as faces vermelhas e exalando um cheiro áspero de fumo ruim que ardia ao faro de todos no local. O anão, exaltado, falava com uma voz tão áspera quanto seu cheiro:
-Pois elfos nunca entenderão o que é amor! Renegam até mesmo sua deusa criadora! Como podem ser tão egoístas?
E o elfo retrucara, olhando para o bardo pelo canto de seus olhos de um amarelo exótico:
-Nós, imortais, apenas morremos por causa da tristesa! O amor não só nos cura, como também nos mata em falta!
E novamente o anão:
-Ora, sim, deixastes quantos filhos neste mundo, caro Degoran?
E o elfo se calou, baixando sua guarda. Com uma rápida olhada, ele passa a pergunta para o humano:
-Mas nenhuma criatura pode saber menos sobre o amor do que os humanos! Gananciosos, egoístas, descuidados, mortais...
E o humano apenas levantou os olhos, bufando em poucas palavras:
-Somos mortais: Só temos tempo de amar uma vez na vida e, por isso, amamos com a intensidade de quem não possui outro dia para fazê-lo.
Anão e elfo se calaram, olhando para o centro do tampo da mesa, pensativos e ressentidos pela resposta que o mortal dera. Nesse momento, o bardo ergue-se e aplaude a resposta do humano, sendo seguido por uma parte do recinto que acompanhara o breve desfecho do diálogo. O bardo então sintetiza o fim da noite:
"Do que lhe vale tantos rubis
se apenas um lhe faz feliz?
A que lhe adianta ter longo fim
se o fim breve lhe bastará?
Por que se apegas ao amanhã
sendo que o hoje é a navalha
que ceifará o imortal
e lhe tirará a sua amada?
Se é tão breve o grande amor,
porque restringes o teu furor?
Se longo tempo ainda tens,
ainda usas de seu harém?"
O amor, tão longe da realidade do pobre bardo, para ele era apenas uma palvra com o mágico poder de gerar problemas. Por mais fora que ele sempre se sentiu de seu mundo e de sua raça, ele ainda assim possuia alguma esperança de, na sua imortalidade, encontrar o tal amor, viver o tal amor e até mesmo, morrer por essa palavra que soa tão doce aos lábios dos homens.
Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas