Aos poucos, tudo que mais prezo se evapora nessa existência. Minha mente, cada vez mais, se vê incapaz de fazer qualquer coisa do que antes fizera com tanto êxito. Não mais me sinto apegado aos meus objetivos e a cada segundo, a cada respirar, eu tenho mais certeza de que já está tudo perdido, como sempre. E como sempre, a culpa é irremediavelmente minha.
Basta notar os vários textos egoístas que tenho publicado que não têm a menor consideração pela racionalidade do leitor, muito menos pelo tempo que, caso algum gaste, ele gasta lendo minhas linhas infrutíferas. Não mais posso dizer que estou feliz com o que faço hoje, além de não ter o mínimo de capacidade que é necessária à execução da mais simples equação.
Penso onde que perdi tudo o que eu tinha conquistado graças ao meu mais árduo esforço. Penso onde errei e se perdi no meu caminho minha vontade de existir. Alias, sinto-me cada vez menos apegado a esta existência.
Todo dia para mim, é apenas outro e não há nada que me faça olhar diferente. Sempre que o pensar me atinge com sua bestial força, me sinto tentado a me levar além de minha maldição. A tentação é tão grande, que às vezes, eu mesmo penso ela ser real.
Não há mais em mim o prazer da descoberta, o prazer do poder tentar, o interesse e o aprofundamento que antes eu tinha pelas coisas. Estou cada dia mais perdido, sem guia em um lugar que definitivamente poderia ser ocupado por um ser mais capaz.
Uma grande pena eu não ligar para o que anda acontecendo. Uma pena que minha consciência se limite a assistir e a lamentar sutilmente de cada ocorrido. Agora, a existência não passa de um filme mal feito, que me leva às ruas fétidas do mundo e a cada rua, encontro mais um cadáver de outra grande oportunidade que eu poderia agarrar.
Foram tantas oportunidades que levei para o meu túmulo, tantas idéias que eu um dia considerei levar adiante em minha vida, que hoje sinto como se eu tivesse passado meus últimos anos como uma criatura vil, um parasita de toda a sociedade, sem produzir nada de útil que fosse e sem adicionar nada à vida de quem quer que eu tenha conhecido.
São tão poucas chances que uma pessoa normal tem de fazer tudo certo, e elas continuam aparecendo para mim abundantemente, e assim, me acomodo. Espero pelo dia em que o desejo da necessidade me leve a agarrar cada oportunidade que deixei passar.
Arrependimento é uma palavra tão vazia para mim que, por mais estranha que a vida que levo comece a parecer, não esboço qualquer sinal de mudança. Talvez faça parte da minha maldição, talvez seja apenas uma de minhas penas: Almejar a condição de mudar que cada ser humano possui.
Quem dera eu, louco e cego como ando, poder olhar para minha vida e dizer: Está tudo errado, ainda tenho tempo de mudar. Por algum motivo, sei que por mais que eu mude, esta será apenas mais uma vida que eu levo. Apenas mais um breve passar sobre a superfície iluminada pela minha Deusa, que hoje mostra o seu prateado para todos que, como eu, voam pelo mundo.
Estou ferido bem profundamente, no mais íntimo do meu ser e sangram-me idéias. Não mais entendo o porquê, mas sei que não conseguirei atingir minha meta. Estou fadado ao fracasso por motivos estranhamente óbvios, escritos na pedra, ou no muro, se preferir. Até que este muro caia, não mais poderei fazer o que mais amo neste mundo, que é tentar consertar algo que jaz, há muito, roto em meu ser.
Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas