É bom entrar escrever aqui, ainda mais depois de tanto tempo.
Alias, acredito fielmente que ninguém consegue acessar este blog obscuro, então, se você está aqui, faça o favor de sair, vá passear em outro lugar e, de preferencia, longe de minhas memórias.
Tanta coisa já aconteceu... Ganhei tanto, pedi tanto... O tempo mudou as cores de minha vida pelo menos umas dez vezes desde a última postagem, mas sempre achei que cedo ou tarde eu voltaria para cá.
Infelizmente, não mais me vejo bardo. Na verdade, perdi o dom de ser o bardo que eu era, minha mente se acomodou no mundo mundano e hoje, sou quase normal... Pelo menos, me mudei tanto que acho que não mais posso voltar a ser quem eu era, ou pensar como um dia pensei.
Lebro que nos meus tempos, tudo o que eu queria era me sentir em casa, sentir-me uma pessoa normal em meio a outras pessoas. Hoje, tudo que eu quero é voltar a ser aquilo que eu era, seja o que for. Minha mente hoje é tão limitada, tão... Distante daquela mente focada, cheia de sonhos e objetivos...
Não mais vejo cores quando ouço música e, se vejo, não mais vivo o som que estou ouvindo. Não consigo mais viver em outros mundos, com a mente distante da vida que aqui vivo. Também não consigo manipular a realidade, as situações e as pessoas. Alias, sou facilmente manipulavel. Eu diria que hoje, sou mais inocente do que eu era ou, pelo menos, minha mente se foca em coisas que, como um dia eu diria, humanas.
Hoje sou tanto... Mas acredito que antes eu era mais. Pode ser uma insatisfação com a situação estável, seja ela qual for. O tempo me levou a capacidade de levar as pessoas para outros mundos com minhas palavras... Ah... O tempo levou uma parte de minha alma.
O sonho de sentar sob a árvore na lagoa hoje é tão vago, mal posso sentir o calor daquele luar em minha face. A falta de minha mente acaba por limitar minhas formas de expressão e... Bem... Aqui estou e mal consigo me expressar.
Lembro que em outros tempos, eu certamente estaria escrevendo sobre um jovem em vielas escuras de sua vida e, ao mesmo tempo, passando todas as idéias que aqui estou passando. Tenho tantos planos para voltar a ser o que eu era... É como se eu tivesse perdido minha rota e, sei disso. Estou sendo chamado de volta de onde vim e eles têm pressa. Em outros tempos, eu certamente barganharia minha estadia na terra que, como sabemos, não será muito longa, mas nem por isso curta. Hoje, estou sem tato, cada vez mais próximo de ceder a minha existência...
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Tão distante estava a lua... Em toda a minha vida, senti a Lua tocar minhas faces todas as noites e isso sempre me fascinou. A Lua fora para mim a Deusa de minha existência por tanto tempo que por vezes ainda chamava a Lua Prateada no lugar de minha nova divindade.
Naquela noite, a Lua estava lá, brilhando cheia, clareando as faces da terra que, ingrata, não lhe devolvia o brilhar. Eu, particularmente, não me sentia iluminado. De toda a claridade, eu me sentia sozinho, escuro e pensativo.
Minha hora, meu tempo, passava tão depressa... E eu mudava a cada minuto. Minha face, suas expressões... Tudo a minha volta estático e minha mente via tudo girar na incerteza de minha existência.
Eu jamais questionara meus momentos de vida. Jamais desejei viver mais, tão pouco menos. Naquele momento, em minha mente, eu sentia, eu sabia da proximidade do fim inevitável. Isso ia muito além do medo da morte, já que este eu não tinha. O medo, era de não estar preparado para realizar o feito final antes dela.
"Qual seria a morte? Qual feito?", um leitor desatento perguntaria. Mas o foco não era esse. O foco era a dúvida, o sentimento de não saber o que fazer ante tal "necessidade especial". Eu sempre pensei que a morte seria algo que eu controlaria e, naquele momento, me falavam que não, que eu não teria o menor controle: Uma vida toda imaginei o momento da forma errada.
Por um momento, levantei-me da cama, me aproximei da janela aberta. Minhas mãos tocaram o alumínio gelado de sua base e meus olhos se ergueram para o céu, em busca da maior Deusa Pagã de todos os tempos. Me senti abandonado...
Em minhas faces, um sorriso se esvaia, enquanto meus olhos passavam pela rua deserta. Eu me sentia tão mal, miserável... Olhei para o chão, dois andares abaixo: Haviam tantas formas que eu conhecia de aliviar tais sentimentos...
Se existe algo que aprendi em minha vida, foi a controlar e entender os sentimentos meus e dos outros. Naquele momento, meus olhos voltaram para dentro do quarto e focaram o livro de capa preta, onde várias respostas dormiam, aguardando serem lidas por mim e... Eu não queria. Eu sabia onde estavam todas as respostas, sabia como fazer para toda aquela dor parar ou como me proteger até o ponto da imortalidade mas, naquele momento, eu não queria.
Sentei-me ao chão. Tantas presenças que eu podia sentir... Em minha mente, uma música triste soava lenta "Thank you for the inspiration... Thank you for the smiles... All the unconditional love, that carried me for miles...". A certeza de que aquele era um beco sem saída me frustrava.
Minha vontade de mudar tudo... Por algum motivo, eu não conseguia. Meus olhos focaram meu braço esquerdo, com veias saltadas e em minha mente, eu sabia que minha saúde já não era uma prioridade. Naquele momento, exato momento, eu estava protegido pelo ritual mais poderoso que um dia eu fiz. Nem mesmo eu poderia me ferir.
Meus olhos passaram sobre um pequeno pedaço de papel gasto, onde runas mágicas em preto me davam forças para pensar e continuar. Aquele era a única coisa que me mantinha seguro, longe dos pedidos de retorno para o plano espiritual. Minha imortalidade estava presa àquele pequeno pedaço de papel e eu sabia disso. Era isso.
Levantei-me, peguei o livro negro, apalpei o guarda-roupas em busca de outros equipamentos e lá estava, em minha frente, tudo o que eu precisava para desfazer a única coisa que me mantinha vivo. O livro negro estava aberto em sua página central, onde a tabua-ritual estava montada.
No centro do pentagrama cuidadosamente desenhado, prendi uma vela. A ponta do pentagrama, naquele momento, apontaria para norte, enquanto do oeste, a brisa entrava em meu quarto, tudo isso iluminado pelos olhos da Deusa de Branco. Tudo pronto.
A vela tremulava, minhas mãos tocavam, inseguras, o papel nos pontos específicos do altar sagrado improvisado. Por mais que eu não tenha o costume de utilizar a ritualística mais longa e complicada, naquele momento, eu fiz. Aquele que era meu último ritual, deveria ser perfeito.
No momento em que as chamas novamente se guiavam a norte, coloquei o papel sobre as chamas. O criptar diferente, o brilho da chama vermelha... Novamente eu via Marte, mas desta vez, para devolver um presente que me fora útil por demais. O papel queimou, as chamas cobriram meus dedos que não mais se moviam. A força daquele ritual demorou para se dissipar e, mesmo assim, o quarto ficou repleto de energias perdidas. As presenças que antes eu sentia não mais tinham a coragem necessária para me acompanhar em tão profunda arte pagã.
Mais alguns momentos e o ritual era findo. Olhei meus dedos e não haviam se queimado. O que começara com sangue deveria acabar com sangue. Exitei por um momento e então vi que logo essa parte do ritual seria cumprida. Tão logo eu deixasse meu quarto, fosse para as ruas. Tão logo me chamasse novamente para o "reino sagrado".
E em minha mente, o tempo todo, a pergunta... "Porque preciso voltar?"