Esse é um texto voltado ao leitor. Nenhum leitor em particular, acostume-se. O leitor ao qual me refiro será o leitor que lerá minhas cartas e não esse antro de minha própria exposição. Não se preocupe, leitor itinerante de minha literatura pobre e limitada, esse texto é escrito para alguém que, quando você esquecer de minha existência, estará começando a descobrir algo sobre minha vida.
Não há muito à falar sobre mim. Na quarta ou quinta carta que escrevi há mais anos do que imagina, eu já tentava fazer isso. Tentei falar sobre mim em minha última carta, mas mesmo escrevendo ela de forma especial e em uma ocasião prazerosa de minha carreira de decadência, me vi ofuscado pela importância que dou aos outros. Outros os quais se esqueceram de mim. Mas eu ainda lembro deles, de seus segredos, de suas mentiras e de o quão bom foi para mim tê-los em meus caminhos. É assim com todos, caro leitor. Todos deixam uma pequena fatia de si em mim, e mesmo depois de me esquecer, eu ainda lembro de cada segundo vivido.
Sou péssimo para lembrar nomes, mas garanto que lembro de cada rosto que vi, de cada expressão e de cada momento, por mais insignificante que fora, em que eles se imprimiram em minha pessoa. Meu individual não existe, como o leitor saberá, após ler a vigésima carta (a última a ser numerada, mas que estará fora de ordem, já que o tempo não manteve minha ordenação). Sou apenas uma mescla de impressões, uma fusão de ações e de momentos. Não existo por mim mesmo e ninguém jamais reparou nisso. Não sei como agir, não sou humano para saber isso e por esse exato motivo, eu me faço ser outro, presto atenção e aprendo a ser um mortal.
Talvez essa seja a grande coisa escrita nesse texto, e que talvez me faça tirá-lo do ar e jogá-lo junto com as outras cartas. Mas lembro-me também que só destrui dois textos que produzi. Um deles, eu quis que alguém achasse, mas foi uma tentativa falha de achar alguém como eu. O outro, foi porque ele foi lido. E lido fora de contexto, ele perdera toda a mágica que possuia. Esses textos que aqui escrevo, posso dizer, que são obras dispendiosas, apenas um acumulado de pensamentos. Aposto que o leitor itinerário nem sabe como diferenciar o que é escrito realmente por mim ou o que é apenas mais um texto que produzi em meus momentos de solidão. O leitor ao qual dedico esse texto, saberá do que estou falando. Meus textos aqui não são dobrados, mas possuem o mesmo padrão dos outros que se encontram no papel.
É por esse e outros motivos que eu digo à todos os leitores itinerários (exceto talvez por um ou outro, que sabem quem são): Vocês não deviam me julgar, pois não me conhecem. Não se preocupem, nunca fui uma ameaça. Apenas não sou tão convenientemente ligado ao seu mundo como vocês são.
Voltando então ao tema principal, que já foi esquecido pelo leitor, falar de mim envolve tantas coisas, tantos momentos que fizeram meu "eu" que seria completamente inviável responder à mais simples das questões filosóficas: "Quem Sou Eu?". Por isso me empenhei e consegui me responder as outras duas. Pela primeira vez em minha vida, não tenho que me preocupar com pessoas me julgando, então minha produção no sentido filosófico tem sido absurda. E isso significa que à cada dia, eu mudo e mudo muito. A cada semana, meu refúgio está mais perfeito e sólido e cedo ou tarde, poderei escrever lá e não aqui. Será uma triste despedida, mas continuarei à postar meus contos. Garanto que o leitor itinerante nem notará que parti. Mas um ou dois leitores saberão que não estou usando esse lugar para expor minhas idéias.
Sempre fui um bardo, sempre manipulei bem as palavras e sempre soube de todas as minhas limitações. Agora, finalmente há algo que me tirará algumas dessas limitações. Basta um pouco mais de trabalho, mas este meu corpo está tão cansado... Não consigo lidar com essa única limitação: O cansaço físico. Minha mente funciona, mas meus olhos sangram se eu privo eles do sono, e minha respiração fica pesada se privo minhas costas de seu descanso.
Em breve estarei no mundo onde costumava trabalhar antes. O lugar é praticamente o mesmo, bem como eu lembro. Para quem não entendeu ou não teve dúvidas até aqui, bem, você é o leitor itinerante e tem meu respeito por acreditar no que sou lá fora e desprezar o que sou aqui dentro.
Ao leitor, aguarde, o bardo ainda vive.
Aos outros, aguardem, o véu que lhes cobre hoje é mais fino do que já fora.
Darvius Alexandros III
O Bardo das Trevas